Não há aluno que se preze que não tenha boas recordações do parque, era na verdade um local de encanto, isto para não falar das juras de amor que se fizeram nos mais variados recantos.
Era e é um jardim muito bonito.
Estas fotografias do João Galrão foram tiradas em alturas diferentes, a da esquerda, de Junho de 1961 retrata a Teresa, o Galrão e a Solange.
Em baixo a foto de Maio de 1960, a Mané, o Galrão e a Teresa.
quarta-feira, 29 de setembro de 2010
Os encantos do parque
domingo, 26 de setembro de 2010
No portão de entrada
quarta-feira, 22 de setembro de 2010
“A malta da noite”
O título deste “Post” pode sugerir que se trata de pessoal da vida nocturna, claro está que não é o caso.
Esta fotografia que o António Guilherme nos enviou tem a ver com uma festa dos colegas que frequentavam a Escola em período pós laboral.
Reconheço o Justino, o Guilherme, e o Prof. Sarmento, mas o Guilherme vai certamente dar uma ajuda na identificação e do motivo desta jantarada.
Comentário:
Devido ao que acabei de ver na sport tv vim até aqui para esquecer, estou assim com o pensamento um bocado parado, mas respondendo ao repto do meu amigo Zé Ventura aqui vai o meu testemunho sobre a foto.Esta foto já saiu no blog, foi tirada no inicio dos anos 70 e como era hábito, as nossas comemorações começavam e acabavam sempre á mesa.Como sempre sabiamos escolher bem o local do encontro gastronómico. Este era um restaurante existente na Matoeira famoso pelos seus assados no forno,pertencente à família do n/ amigo Herminio,já falecido,num estúpido acidente viação,que esteve ligado à panificadora caldense e tambêm ao fabrico da famosa ginga de Óbidos.Falas-me de motivação? Bem,o pessoal naquele tempo estava sempre motivado para estas coisas, talvez no final de um período ,talvez por termos tido um ponto com o dr. Sarmento que tenha corrido bem a todos, de facto não me lembro qual o motivo deste jantar.Temos o Justino , Pereira,Teresa, ex do Justino,Prof.Sarmento,Inácio,Lopes (de pé)Guilherme,Vidigal, ? ,Gerardo
um abraço
A.Guilherme.........26-09-10
sábado, 18 de setembro de 2010
O Pessoal da secretaria
O Carlos Gouveia com estas fotografias recorda o seu Pai, “O Sr. Gouveia da Secretaria”.
A primeira foto já é na Escola Nova, e as seguintes, como é fácil de ver, são da Secretaria da Escola Velha, que se bem me lembro ficava à entrada no lado esquerdo.
Do Pessoal da Secretaria, além do Gouveia, lembro-me do Adalberto, a D.Teresa e ….Não me lembro dos nomes dos outros funcionários.


quinta-feira, 16 de setembro de 2010
Meninas de 1960
Esta é uma fotografia que é comum aos álbuns da Gina, da Leticia e da Professora Ermelinda.
As meninas na sua imaculada bata branca são: a Fernanda, a Leticia, a Cremilde (já falecida) e a Monserrate.
Em baixo: a Lurdes, a Isabel Caetano e a Gina.
O ano desta foto é 1960 e a julgar por fotografias que já passaram por aqui, julgo que foi obtida durante uma visita à Barragem do Cabril em qualquer dos casos uma vez que as férias já lá vão, os comentários vão voltar em força e em breve temos noticias desta "malta".
segunda-feira, 13 de setembro de 2010
Alunos dos anos setenta
Esta viagem dos alunos dos anos setenta, aqui documentada, numa foto enviada pelo Francisco Inácio, como vem sendo hábito vai ficar um pouco por explicar o local onde a mesma foi obtida e os intervenientes ou pelo menos parte deles. Talvez alguém se lembre e nos diga, porque eu em 1972, ano provável da foto, já andava por outras paragens.
Comentários:
A estátua de Eça de Quirós permite-me identicar o local como sendo a Praça do Almada na Póvoa do Varzim. Quanto aos retratados, o melhor é mesmo pô-los a falar e a contar-nos histórias. Caso contrário, será mais uma fotografia para o tal álbum virtual de ilustres desconhecidos...
Artur R.Gonçalves........14-09-2010
Obrigado Artur. É que ao ver a foto com a estátua de Eça, abriu-se uma luz muito ténue na minha memória. Entre Janeiro e Março de 1974, a Póvoa foi local da minha residência, numa casa térrea na Rua que se chamava de 28 de Maio (honras à revolução??? de 1926). Hoje será a rua 1º de Maio, se ela existe. Os 3 colegas de casa eram todos do ICL. Um era o Malvar (José Firmino Pereira Malvar ??) de Peniche, os outros 2 eram Algarvios, um Farrajota (todos os Farrajotas são, eram, algarvios) e um outro grandalhão,já casado na altura, não dá para recordar o nome.
Tropa a quanto obrigas! O quartel da terra não tinha camas suficientes para todo o pessoal.
Às vezes (muitas) ia passear para aquele parque.
Nunca mais voltei ao local.
....Ontem depois de enviar a minha mensagem, lembrei-me do nome do tal «grandalhão» que foi nosso colega no ICL. Aleluia Vasco, diz-te alguma coisa, meu caro Artur?
Abraço
J.L Reboleira Alexandre......15-09-2010
Esta foto foi tirada em Março de 1974 na exc. de alunos dos cursos noturnos que realizámos ao norte de Portugal. Está o Inácio(que não vejo há muitos anos) o Barbas é o António Alberto-tecnico da EDP o prof. Pinto Correia, eu e a minha mulher (tinhamos casado há dois meses) e recordo me que foi uma grande confusão para termos um quarto no hotel, o outro barbas é o João Carvalho, temos a Adelaide, São, Saul, etc.etc.
Guilherme.........16-09-2010
sexta-feira, 10 de setembro de 2010
No Parque
1966 é o ano desta fotografia que vem do álbum da Lurdes Peça. O cenário é a pérgula do Parque e os protagonistas são a Lurdes Peça, a Elisabete Fortunato, o Filipe Silva e sentada na relva, a Mizá.
Comentário:
Pois é, era assim, depois da missa de domingo na igreja Nossa Senhora da Conceição e antes de voltar a casa para almoçar, íamos até ao parque abrir o apetite e combinar o programa para a tarde!
Aqui o Filipe andava a catrapiscar a Zé da Capelinha do Monte, enquanto eu e a Mizá esperávamos pelos nossos ribatejanos. A Zé foi a fotógrafa, penso eu! Abraços para todos.
Lurdes Peça..........26-10-2010
terça-feira, 7 de setembro de 2010
Um trio em pose
Segundo a inscrição no verso ficamos a saber que os retratos foram tirados em 18 de Março de 1966, e as meninas são a Eugénia Falua, a Teresa Henriques e a Fernanda Silva de quem são estas fotos.
Se bem se lembram o Pai da Fernanda Silva era o António Pedro, um brilhante jogador de futebol dos anos cinquenta, a quem o Jornal “A Bola” chamou de “O armador do Caldas”.
sábado, 4 de setembro de 2010
Um passeio à Mata
A viagem não foi muito longe mas as alunas da Formação Feminina de 1963 divertiram-se muito certamente.
As fotografias deste passeio até à Mata, tem a particularidade de apresentar na foto de cima a Prof. Deolinda Ribeiro, o que não era muito comum, pois era um pouco avessa a fotografias.
Estes documentos fotográficos fazem parte do álbum da Fernanda Beatriz que mais tarde também deu aulas.
quarta-feira, 1 de setembro de 2010
Viagem de Finalistas de 1972
Espanha foi o destino desta viagem de finalistas de 1972. A fotografia vem do álbum da Fernanda Amaro e a não ser que a nossa colega ajude na identificação, os meninos e meninas ficarão sem nome, pois eu não conheço esta rapaziada, com excepção do primeiro da frente que me parece ser o Horta Salvo.
Comentário:
Efectivamente o primeiro é o Horta Salvo. Depóis vem o Coito e creo que o terceiro é o Palma. Eu sou o último do primeiro grupo.
Valdemar Almeida (21/08/2011)
domingo, 29 de agosto de 2010
Viagem de Finalistas
Nestas fotografias enviadas pela Fátima Valente, recordamos a viagem de Finalistas de 1966 a Espanha.
As alunas aproveitaram uma paragem perto de Tuy para “tirar o retrato”.
A Fátima Valente vai contar-nos quem é que são estas personagens, em qualquer dos casos reconheço a Lena, a Mila, a Mitá, a Glória, a Fátima e a Ermelinda.
Comentário:
Os meus parabéns, Zé, identificação correctíssima!
Falhou-te, apenas, aquela 3ª menina, da esquerda para a direita, de pé, vestida de escuro; trata-se da Alzira Vasconcelos, cujo pai faleceu há dias e a quem aproveito, por desconhecimento de qualquer outro meio de contacto, para enviar os meus sentimentos.
Sei que, creio que por motivos profissionais, se afastou de Caldas, vive em Coimbra e já não a vejo há uns aninhos!
Mas, também não me parece grande proeza a tua, Zé! As diferenças são quase inexistentes, estamos praticamente na mesma, como não havias de nos reconhecer?...
Beijinhos e continuação de um escaldante verão para todos!
Fátima Valente...........29-08-2010
quinta-feira, 26 de agosto de 2010
O Grupo Coral
Estas fotografias fazem parte de um álbum que se encontra nos arquivos da Escola.
Não têm nenhuma identificação nem sequer estão datadas por isso não é fácil legendar.
Na assistência reconheço alguns professores mas quanto ao grupo coral, não sou capaz de identificar ninguém.
Comentários:
É muito possível que o Maximino esteja aí "escondido" involuntáriamente pelas colegas...
Estive aqui de ouvido à escuta...mas não ouvi nem um único som...!!!
Que estariam a cantar...???
Senhora do Almortão
Vira costas a Espanha...?
Um abraço
Maximino .............28-08-2010
terça-feira, 24 de agosto de 2010
O Mestre Mário Pólvora
Hoje fui surpreendido pela visita de um antigo Professor que já não via há muitos anos, o Mestre Pólvora.
Quem andou nos electricistas lembra-se bem deste professor.
Em minha opinião foi um dos grandes profissionais que passou pela Escola.
Em 1969 levantou-se algumas dúvidas sobre a sua vida pessoal e foi convidado a aceitar a “sugestão” de se transferir para outra Escola, que recusou, pondo ponto final na sua carreira como docente.
Sobre o assunto diz o meu amigo Pólvora:
“Faz dentro em pouco 41 anos em que morri e desde então esta "imitação" de vida mais sofrida que real tem sido uma travessia absolutamente dolorosa. Em 1969 perdi aquilo de que mais gostava - ensinar, se bem que continuei também a acompanhar a formação de jovens quer em clubes de que fui dirigente, quer como treinador e juiz-arbrito de atletismo.
Também dei formação durante anos nos cursos do fundo social europeu.
Neste momento estou reformado e a viver cada dia dos meus 67 anos com o desejo de que todos e cada um dos meus 214 ex-alunos tenham vencido na vida, principalmente com saúde.”
Esta “história” na altura ficou muito mal contada e hoje reforcei a minha ideia que houve politica pelo meio, porque o regime não gostava muito de “vermelhos”.
Mas isso são águas passadas e o Pólvora é um resistente e não se deixou abater.
Mas voltando ao nosso encontro, fiquei completamente rendido à sua memória de elefante. Quando se refere aos “seus 214 alunos” faz sempre pelo nome completo e mostrou um profundo conhecimento das suas carreiras profissionais e não só.
“Sei que infelizmente essa jóia de rapaz que era o José Mamede Carreira Ângelo nos deixou em 1999. Vi o agradecimento do Grupo Regojo num jornal de Lisboa, de que ainda tenho o recorte. Também o Henrique Santana que foi aluno do CFME nocturno, mais tarde Animador Cultural aqui na Câmara da Marinha Grande, partiu na grande viagem de que muito tarde tive conhecimento por amigos comuns do Partido Comunista.”
Sobre os Encontros de Maio diz:
“O Blog é uma maravilha se bem que aquelas míudas e aqueles garinos hoje pareçam mais carquejas que eu. Por ele vou seguindo a par e passo das vossas actividades e encontros anuais.
Vou vendo que"lanzudos" como o Álvaro Gandaio, tortos como o João Almeida e outros perderam o viço capilar. Coisas da vida.
Nas fotografias(dos Encontros) reconheço o Amilcar Prata Palma dos Santos, o Bertolino Francisco, o Carlos Alberto Gonçalves Neves (Cábé), o José Luis Santos Brilhante, o Álvaro Teixeira Gandaio, o João Almeida da Silva (João Torto), o Francisco Barros Cunha Leal, o Luis Manuel Franco Silva, enfim tudo gente boa. Um abraço sentido que envolve toda a “confraria dos pataniscas”.
Um Grande Abraço do Mário Pólvora
Para ilustrar o que digo sobre a sua memória vejam esta fotografia que ele enviou devidamente identificada.

sexta-feira, 20 de agosto de 2010
Passeio a Coimbra
Do álbum de fotografias da Professora Ermelinda vêm mais estas preciosidades de 1936.
Como ainda não foi possível um encontro com a professora para nos dar conta destas aventuras fica as imagens do passeio com a legenda inscrita no verso, e como se pode ver devidamente carimbada pelo Foto Pereira da Rua Miguel Bombarda.
domingo, 15 de agosto de 2010
No Penedo da Saudade
Esta é uma das fotografias que o Carlos Gaspar encontrou no seu baú.
Datada de Março de 1971, diz respeito à viagem de finalistas e foi obtida no Penedo da Saudade em Coimbra.
Os alunos são: o Mateus, a Marília, o Carlos Gaspar, ???, Dília, ???, esposa do Ramalho, a professora de mercadorias (de gorro), ??? e a Isabel.
Tal como ele diz é bom recordar velhos e bons tempos que nunca mais voltam.
quinta-feira, 12 de agosto de 2010
segunda-feira, 9 de agosto de 2010
No pátio da Escola
Esta fotografia da Ausenda, datada de 15 de Maio de 1955, faz parte das suas recordações dos tempos de Escola e segundo ela as colegas retratadas são:
Em pé: Alice Valério, Maria Adelaide, Prof. Silva Júnior, Helena Arroja, Profesora ?, Maria Alice, Margarida Cabaço, Helena Raimundo e Lénia.
Em baixo: Natália Pavão, Júlia Duarte, Ausenda, Maria Odete e Odete Barros.
Temas: 1955
terça-feira, 3 de agosto de 2010
Uma foto do Artur
Das memórias fotográficas do Artur da Foz do Arelho vem esta foto provavelmente de 1964.
Não sei bem qual foi o tipo de festa que motivou esta fotografia, e também tenho alguma dificuldade em identificar os intervenientes, mas que o CA-17-99, não está a ser muito bem tratado, lá isso não.
Comentários:
Assim, sem mais nada o único comentário é que para uma foto tirada á 46 anos, talvez, ela está com boa nitidez, parabéns ao fotógrafo. Ficamos á espera de mais informações.Um abraço
A.Justiça.........03-08-2010
Coitado do carro do Dr. Sarmento, mais conhecido por Seringa (pois é dele que se trata) !
Quanto à malta, venham os "identificadores" habituais !
Abraço do
Noronha Leal ................04-08-2010
O carro pode ser do Dr. Sarmento (Seringa) mas a senhora na fotografia não será a Dona Margarida Ribeiro?
Um abraço a todos
Antonio Abilio................06-08-2010
Temas: 1964
domingo, 1 de agosto de 2010
Ponto de Encontro
Esta foto que hoje se publica é exemplo disso mesmo.
Nesta fotografia de Maio temos, à esquerda; o Fernando Santos de Olhão, o Fernando Alberto do Canadá e eu, Zé Ventura.
De notar que o Fernando Alberto veio do Canadá de propósito para participar no nosso encontro, quanto ao Fernando Santos, ficou a promessa que um destes anos nos fará companhia nas nossas festas.
Comentários:
Olá Zé Ventura!
Obrigado pela publicação da foto. Não estava à espera, gostei, e até andava com ideias de lha pedir caso tivesse ficado boa.
Achei a foto interessante em dois aspectos. Estão presentes duas gerações. A do Fernando Alberto e Zé Ventura ( anos 50/60 creio) e a minha anos 30. Em segundo lugar três climas distintos representados pelo nosso vestuário.
O Fernando Alberto vindo do Canadá onde clima é bastante frio, apenas com um ligeiro blusão e camisa. O Zé Ventura, anfitrião, veste blusão mais encorpado, pulover de lã e camisa, eu, ido do Algarve onde o Inverno é menos rigoroso, vou preparado para o clima das Caldas com um grosso casacão, camisola até ao pescoço e camisa de flanela.
Quanto ao mês de Agosto cá vai indo com as habituais enchentes da época, pese embora a tal crise que nestas paragens não se faz notar tanto como por aí se diz.
Um abraço e boas férias.
Fernando Santos......02-08-2010
(Comentário do Justiça no Facebook)
Ainda sobre o Ponto de Encontro gostaria de acrescentar o seguinte: Não fora a perda de tempo tão necessário para atender os seus clientes, o seu estabelecimento comercial tem sido o local que até agora permitiu muitos encontros que doutro modo não teriam acontecido, como foi o meu caso.
A promessa está feita. Lá estarei no próximo ano caso a saúde o permita.
Gostaria ainda de felicitar não só o Zé Ventura como todos aqueles que ultimamente têm contribuído para o novo estilo que o Blog está a seguir. Continuamos a ver fotografias onde são identificados muitos colegas. (Que boa memória tem o Chaves!)
Todavia o que me agrada mais são as excelentes e interessantes estórias ou histórias vividas!
Sem minimizar os trabalhos apresentados pelos outros colaboradores deste Blog, gostaria de referir os seguintes nomes: Orlando Sousa Santos " O Jeito Para Línguas" A. Justiça "Portugal vs Coreia do Norte" e " O Sr. Custódio". Maximino " A Bateira da Lagoa de Óbidos" e "A Matança do Porco". Reboleira Alexandre "O Rogério Coelho".
Disse o Alfredo Justiça em tempos idos que não sabia ou não tinha nada para contar. Tinha, e ainda deve ter muito mais!
Digo-lhe sinceramente que aquele episódio da guerra no Ultramar publicado no Blog do E.R.O. mexeu bastante comigo.
Só por isso, aqui vai um abraço muito especial pela coragem que demonstrou ao nos dar a conhecer um pouco do que foi a guerra vivida por quem lá passou.
Boas férias e um grande abraço para todos.
Olhão, 4 de Agosto de 2010
Fernando Santos.
quinta-feira, 29 de julho de 2010
O Rogério Coelho
O Rogério nunca frequentou a Bordalo, mas se o Portugal do fim dos anos 50 e inicio de 60, fosse menos cinzento e todas as crianças tivessem direito às mesmas oportunidades não se teria ficado pela antiga 4ª classe.
Comecei a conhecê-lo, quando, criança, ia com os meus pais para uma propriedade agrícola que possuíamos perto da pequena casa onde ele vivia com a mãe, a que chamávamos «as pedreiras» (aquilo realmente eram só pedras, silvas e barro). A casa seria na altura a casa mais pobre da aldeia, e a mãe não representaria o tipo de mãe que todos os meninos gostariam de ter, ou porque para tal era incapaz ou porque a vida disso a impedia. Sempre que passava frente aquela casa, era com imensa tristeza que os meus olhos para ela se dirigiam.
Fui crescendo até que antes de perfazer os 7 anos, iniciei a instrução primária. Para surpresa minha, aquele menino que eu sabia ser mais velho um ano do que eu, sentava-se na nossa fila. Na altura, e como na escola apenas havia, e continua a haver, 2 salas de aulas, os alunos da 1ª e da 3ª classe, estavam numa sala e os da 2ª e da 4ª classe, noutra. A nossa professora, a Dona Augusta (houve outras, mas foi esta a que mais me marcou), senhora de uma bondade e paciência ilimitadas como que se tornou numa segunda mãe para o Rogério.
Se no primeiro ano de escolaridade não tinha conseguido passar de imediato para a 2ª classe, a partir daquele mês de Outubro de 1958, nunca mais este meu colega de ano chumbou e fazia parte normalmente dos alunos com melhores resultados. Tal não impedia no entanto que a famosa régua por vezes apenas parasse depois de encontrar as palmas das suas mãos.
Junho de 1962, enquanto nós esperávamos ansiosamente pela chegada do dia do exame final da 4ª classe, a realizar na grande cidade, as nossas mães tinham outros problemas. É que o Rogério andava normalmente descalço, e as camisas nem se lhes reconhecia a côr original, e seria impensável ir assim com ele para exame. Rapidamente se organiza uma comissão, que seria responsável pela compra da roupa adequada a tal acontecimento, e não menos importante, o indispensável banho de forma a que as gentes da cidade não se apercebessem da real condição do nosso colega. O banho foi dado numa das casas dos mais afortunados, e uma vez os sapatos, e o completo de fato e gravata comprados estava em condições para entrar num dos táxis contratados para a grande viagem. Automóveis particulares não os havia, se exceptuarmos os das tia e sobrinha Ribeiro, que já na altura eram professoras no ERO e na Bordalo, mas a aldeia nunca contou muito com elas. Elas que nem se dignavam dar-nos uma boleia quando por nós passavam na nossa caminhada diária a pé para Tornada, onde frente à igreja esperávamos a camioneta dos Capristanos .
No exame final, numa escola ali ao lado do posto da Policia de Viação e Trânsito perto do Parque, o nosso amigo não teve qualquer problema e no fim ainda nos acompanhou a beber uma gasosa, ou seria uma Canada Dry, que os nossos pais nos ofereceram na Esplanada do Parque. A mim até cerveja me propuseram mas com 10 anos apenas, achei o sabor amargo e não gostei. Terminada a festa, depois dumas voltas nas bicicletas de aluguer do Parque, o nosso conterrâneo teria que procurar trabalho e, claro, no dia seguinte já estava numa oficina de bicicletas que existia perto da Garagem Caldas, na rua que ia para a Bordalo Pinheiro e depois disso ainda andou por outras oficinas do ramo. No entanto apenas trabalhou por conta de outrem até partir para a tropa.
Neste tempo já nós entre os 13 e 15 anos íamos sozinhos para a praia de Salir, onde havia meninos mais afortunados que nós que se passeavam nuns barcos que possuíam uns motores atrás, os tais fora de borda. Faziam corridas e tudo. Aí começamos a pensar porque não construirmos um barco parecido com aqueles. Para tal faltava-nos no entanto o engenho, quando alguém se lembra do nome do Rogério, que por vezes aparecia por ali numa maravilhosa V5 que, creio já andava a mais de 60 Kms por hora. Uma velocidade impressionante.
Explicamos-lhe o que pretendíamos e ele, de imediato meteu mãos à obra. Aconselhou-nos a comprar um barco de alumínio com cerca de 2 metros de comprimento, que o problema do motor seria por ele resolvido. Alguns dias depois eis que atrelado à sua V5 chega o famoso barco. Só que o motor, não funcionava a gasolina, mas sim através de um engenhoso sistema de pedais com uma corrente, copiado das bicicletas, que accionava uma hélice no exterior, na popa e fazia navegar o barco. Não sei se algum dia competimos com os fora de borda da baia, mas no rio de Salir e com a maré cheia fazia a inveja de todos aqueles que não possuíam barco nenhum. Nunca esqueci este episódio da minha meninice. Sim que não teria mais que 13 anos na altura.
O Rogério entretanto continuava no seu trabalho nas bicicletas até que foi chamado para a tropa. Voltou, casou e de imediato abriu uma pequena oficina numa rua da aldeia, que ainda lá está. Perdi um pouco o contacto com ele, e quando por vezes por lá passava, tendo-lhe até lhe chegado a comprar uma bicicleta para o meu filho mais velho, parecia-me que o negócio funcionava, agora até já tinha um tractor com que arredondava os fins de mês em pequenos trabalhos agrícolas para clientes eventuais. Notava-lhe no entanto uma certa dureza no olhar por vezes quando nos cumprimentávamos. Contou-me que se dedicava à caça, e ia trabalhando. Até que um dia vejo na Gazeta a noticia que não me surpreendeu. Numa das caçadas e com um ou dois copos a mais, a sua arma matara o seu habitual companheiro daquelas andanças. Pagou a dívida à sociedade com a respectiva perda de liberdade, e voltou a instalar-se na pequena oficina da aldeia. Mas se a reinserção de um ex-prisioneiro é difícil numa grande cidade, numa aldeia como o Chão da Parada, é impossível.
O Rogério nunca mais foi o mesmo e há alguns meses, decidiu acabar com todos os seus problemas. Ainda não teria 60 anos. Eu lembro-me sobretudo do meu colega da Primária e do barco a motor movido a pedais.
Até um dia!
J.L Reboleira Alexandre
Comentários:
Vamos lembrando recordações do passado e embora nesses tempos não tivessemos a maior parte das coisas hoje acessíveis, a verdade é que o fazemos, mesmo assim...com saudade...
Quantos Rogérios não conhecemos, quantos amigos de infancia não recordamos...
Vida dificil a desses tempos, mais para uns do que para outros, mas para a maioria não deixam de ser boas recordações...
Abraço do Maximino........31-07-2010
O Rogério
Zé Luís, passaram mais de 50 anos sobre a tua estória. Infelizmente também conheci, nessa altura, alguns Rogérios que me ficaram como amigos durante todo este tempo já decorrido. Mas o lamentável, meu amigo, é que parece não ser só devido ao cinzento da politica de outrora pois esta cor se mantém e o País, infelizmente, continua a conter demasiados Rogérios no seu seio apesar dos políticos actuais lançarem o absurdo das novas regras de não haver chumbos. Será que não percebem que o que estão a fazer é só fachada para UE ver e que com isto estão a comprometer o futuro. Enfim passou-se do 8 para o 80 e se lutamos para alcançar as virtudes da meritocracia assim dificilmente a vamos alcançar.
Esta tua estória vem reforçar aquilo que tanta vez saliento, mesmo nos meus escritos, vivemos a nossa meninice e juventude numa época em que, os que não podiam comprar feito, o que era a grande maioria, tínhamos de inventar os nossos próprios brinquedos, brincadeiras e outras distracções. Foi realmente uma época rica em imaginação e criatividade e, se calhar, por isso mesmo o surgimento do que de melhor se fez em música, cinema e literatura.
Concordo contigo quando concluis: “Eu lembro-me sobretudo do meu colega da Primária e do barco a motor movido a pedais”, é realmente os bons momentos que devem ficar nas nossas memórias sendo no entanto salutar que os menos bons, ou mesmo maus, não sejam apagados definitivamente.
Apesar de tudo e o seu final drástico foi, é, uma estória de vida bem contada demonstrativa que os maus começos dão quase sempre maus fins e por isso o meu receio quanto ao futuro deste nosso País abusador do facilitismo que vive.
Um abraço
A.Justiça.........01-08-2010
Pegando "na denuncia" do amigo Justiça... dizer que tenho andado a ouvir nas notícias e nem sei o que dizer...por favor alguém me explique...!!!
Então agora vai-se para a Escola...e nunca se chumba, mesmo que nada se saiba...???
Não há dúvida de que Portugal se está a tornar num país do faz de conta...!!!
O meu neto, agora quase com nove anos...quando saiu do jardim escola, teve festa de "fim de curso"...
A minha neta, com dez anos passou agora para o 5º ano e teve festa de despedida, com direito a capa e tudo...como se se tratasse de um fim de curso universitário...!!!
Também...estou para aqui a admirar-me ...quando até temos um 1º ministro que tirou o seu licenciamento ao Domingo...!!!(Já nem sei se tirou...ou se não chumbou numa 1ª experiencia do que há-de vir...)
Portugal...tu és fantástico...ou será que é fantasmagórico...???
Querem ver que não tarda... as crianças vão sair da maternidade...já licenciadas...???
Valha.me um burro aos coices...(de longe...não vá o diabo tecê-las...)
Um abraço Maximino .........01-07-2010
Ao amigo J.L. Reboleira Alexandre um agradecimento e os parabéns por esta boa estória sobre o seu colega de infância.
Gostei do seu texto e também me fez lembrar duas coisas, da escola do bairro Albano (foto), que eu frequentei até á quarta classe.
Quando cheguei a essa mesma escola encontrei alguém como o seu amigo Rogério, que na primeira classe não tinha sapatos para calçar, até por vezes não tinha nada para comer, embora naquele tempo havia a cantina na estrada da Foz perto do matadouro, que servia refeições para os menos privilegiados.
Eu também senti pena por este colega e um dia sem avisar os meus Pais, levei para casa para lhe dar de almoço, quando lá cheguei os meus Pais não tiveram outra alternativa se não dar algo para o rapaz comer, pois nós também não éramos dos mais abonados, mas sempre havia uma coisita para ajudar quem precisasse, e assim foi, o rapaz comeu do nosso almoço como fosse parte da família.
Infelizmente nunca mais soube nada desse colega mas de facto era mais um dos Rogérios do nosso tempo.
Ainda bem que os Rogérios de hoje já não andam descalços nem têm tanta fome.
Mais uma vez obrigado por a sua estória J.L.R.Alexandre. Trouxe-nos memórias de como os nossos tempos eram.
Bem-haja para a fartura de hoje.
Um abraço
Antonio Abilio...........06-08-2010
O António Abilio anda um pouco a Leste da realidade de hoje, e repare que também me esforço por convencer-me que já não há Rogérios no nosso País, mas eles mudaram de local. No nosso tempo de crianças, á 50 anos, ou mais, os Rogérios encontravam-se nas aldeias e lugares recondidos do País onde agora é raro vê-los e mudaram-se para as grandes metrópoles, capitais do nosso pequeno cantinho português. Sugiro umas voltas pela capital depois da uma da manhã e então aí é vê-los na repescagem dos caixotes do lixo dos grandes super-mercados e centros comerciais. Agora, amigo António, existe uma pobreza mais dificil de enfrentar, a dos nossos novos pobres porque é uma pobreza envergonhada. É a pobreza daqueles que durante toda a vida trabalharam, fizeram uma vida honrada embora apertada, mas digna e louvável e que de um momento para o outro ficaram sem nada, sem emprego, sem meios de ganhar o dia a dia, e com vergonha, porque nunca precisaram, de pedir ajuda, menos ainda de pedir nas ruas, de frequentarem as casas da sopa. Muitos deles apenas choram e a nossa sociedade materialista não quer admitir que existam e, até alguns que por enquanto ainda têm a sorte de poder colocar o comer na mesa, se refugia no "vão trabalhar calinas", maldade de todos aqueles que no fundo, bem lá no fundo, têm é receio de lhes vir a entrar pela porta situação idêntica.
Por isso, António, procure bem pois encontrará muitos Rogérios.
Um abraço
A.Justiça.........06-08-2010
Amigo Justiça tem toda a razão!
Eu felizmente não estou a par de quantos Rogérios, há hoje no nosso cantinho, pois quando ai vou, procuro sempre matar as saudades do bom que deixei, por isso talvez não ter encontrado os mais necessitados por onde ando.
Não tenho dúvida do que o Justiça diz, que eles existem nas grandes metrópoles e que existam mais do que no nosso tempo, pois a população é muito mais numerosa, a dita crise tem dado muitos mais rebentos e frutos a esse problema.
O amigo justiça já de certo reparou que eu tenho alguma dificuldade em me expressar na escrita, pois já são muitos anos sem escrever em Português.
É este blog que me está ajudar a recuperar e a desenvolver o pouco que eu trouxe com 14 anos de idade.
Talvez o que eu deveria ter dito era que hoje a fartura é tanta, que até temos também mais Rogérios na nossa sociedade.
Agradeço ao amigo Justiça por me chamar á atenção, mas espero não ter de encontrar muitos desses novos e envergonhados Rogérios. Pois prefiro manter a minha (ideia)ou digamos memória, nas coisas que temos de bom no nosso cantinho.
Eu vivo num País farto e rico onde também tem muitos Rogérios, causados de várias razões, pois não fogem à regra das grandes metrópoles como citou.
Esta sociedade de capitalismo suporta, e de certo modo causa a existência de estes novos Rogérios que também temos em Portugal.
Obrigado amigo justiça por a sua ajuda, pois gosto de ler o que escreve, força e continue.
Um abraço do Antonio Abilio.......09-08-2010
quarta-feira, 28 de julho de 2010
Uma festa que se recomenda
INATEL , Sábado 7 de Agosto , 20 horas
Estão presentes pessoas que vivem nesta zona e outras que emigraram para sítios distantes mas que regressam nesta altura.
Todos podem participar, a única limitação é o número de lugares livres na sala do restaurante.
Inscrições (18 € por participante) em
Audiomanias
Av 1º de Maio, nº6
2500-081 Caldas da Rainha
Tel.: 262 823 280 / 262 845 539
Pessoalmente não poderei estar neste evento, pois na mesma data tenho um encontro com outros amigos em Amarante. Mas recomendo vivamente a presença nesta reunião que promete ser uma noite bem passada.
Comentários:
Obrigado pelo apoio e a divulgação!
Um abraço
JJ
Contamos com todos os que gostam da Foz do Arelho.
Sábado - dia 7 - lá estaremos,gosto de ver este blogue a apoiar a iniciativa.Abraço
Blow Up
A organização agradece a todos os blogues que aderiram a esta iniciativa e promoveram a sua divulgação.
O Inatel é um espaço agradável com uma visão magnífica sobre a Lagoa, estão criadas todas as condições para uma calorosa noite de convívio.
Inscrevam-se!
Submarino Amarelo
domingo, 25 de julho de 2010
O Exame de Economia Doméstica
O exame final da disciplina de Economia Domestica era coisa de um requinte só ao alcance de alunas prendadas como eram as meninas da Formação Feminina. Comentários:
Estando a beleza da fotografia indubitavelmente no seu conteúdo e bem assim na representatividade do momento haja alguém, por favor, (please, please), digam-me quem são estas caritas lindas, digam-me em que consistia este exame… é que eu não frequentei o curso de Formação Feminina… por isso só sei o que aprendiam, e sei isso porque fui casado durante 36 anos com uma colega vossa que não consta da fotografia porque acabou o curso dois anos depois.
Aurora, também fui finalista no ano de 1966, Formação de Serralheiros, pelo que devemos ser contemporâneos, e fico destronado olhando para a fotografia, recordar os semblantes e não conseguir associar nomes. Vá lá, faz um esforço e elucida-nos. Se não conseguires na totalidade desafia as intervenientes a fazê-lo.
Um abraço
A.Justiça........26-07-2010
Bem...eu que também não fui de Formação Feminina, tal como o Justiça...
Só posso dizer que a 2ª a contar da esquerda (senão me engano...)...é a Aurora...!!!
Já ajudei uma amigo Justiça...!!!
Maximino ...........26-07-2010
Eu também não fui da Formação Feminina e muito menos de 1966 saí em 1961 mas posso ajudar, a primeira da fila da frente é a Teresa Carinhas e a quinta da mesma fila é a Fernanda Arroja.
Anónimo.........28-07-2010
Em baixo, da esquerda para a direita: Mila Coito, Aurora, ?, Regina, ?,?, D. Helena Gouveia e filha, Gina (S.Martinho), Alice, Conceicao Martins, Maria do Rosario, Lurdes Santos, ?, Ana Bela (eu), Sao Lopes, ?, ?.
Em cima, esquerda para a direita: Eleonora, Solange, Graca Jordao, Alzira Vasconcelos, Ermelinda, Isaura Clerigo, Antonieta.
Um abraco a todos,
Ana Bela Monteiro (S. Mamede). .......01-08-2010
Da esquerda para a direita na primeira linha a ultima parece-me a Luzia ??
Anónimo........01-08-2010
Muito engraçada esta fotografia. Em casa dos meus país havia muitas fotografias destas festas. Vou procurar mais quando voltar ás Caldas pois agora estou de férias, mas confirmo a minha mãe Maria Helena Gouveia e a minha irmã Luisa Gouveia que pela data tinha na altura 4 anos. Se a minha mãe ainda fosse viva teria gostado muito de ver esta fotografia com as suas alunas aqui publicadado no blog da Escola que ela permanentemente espreitava. Obrigado á Aurora e ao Zé Ventura
Carlos Gouveia..........02-08-2010
Obrigado Ana Bela, devias ver o meu semblante mais feliz por associar as caritas aos nomes. Vê bem que olhava para a cara da Gina e dizia... eu conheço, via todos os dias, mas quem é? A idade não perdoa. Já agora vê se pões o António a mexer nesta "caneta" moderna.
Um abraço para ambos.
A.Justiça.........02-08-2010
quarta-feira, 21 de julho de 2010
A Matança do Porco…
Na minha memória mais longínqua, estão também ainda as matanças do porco, que se faziam então regularmente na minha aldeia.
Em minha casa não se matava o porco, as possibilidades económicas de meus pais não o permitiam, mas na família, havia muito quem o pudesse fazer.
Assim, todos os anos em pleno inverno invariavelmente decorriam as matanças, tinha que ser nessa época do ano, pois nesse tempo ainda não existia a possibilidade de usar as arcas frigorificas que vieram revolucionar o sistema de conservação das carnes pelo frio.
Matar um porco, era o governo de uma casa para o ano inteiro, por isso tanto cuidado na alimentação do animal, normalmente à base de beterraba, abóbora, as batatas mais miudas, couves, às vezes algum feijão bichado e milho, que iriam possibilitar que a panela pudesse ser devidamente temperada ao longo do ano, para satisfação alimentar e felicidade da família.
A matança do porco, que para os adultos não deixava de ser uma normalidade, embora fosse em parte também um escape para o dia a dia de trabalho árduo no campo, era uma festa para a gaitada.
Manhã cedo, juntavam-se os homens da família e os amigos, invariavelmente convidados para a função da matança e de tudo o que girava em volta desse acto, tradicional na vida das nossas gentes de então.
Amolavam-se as facas, lavava-se a banca e as mulheres preparavam os panos necessários para as diversas funções, o alguidar de barro vidrado com o sal e o vinagre e umas folhas de louro e alguns dentes de alho, para fazer a recolha do sangue que sairia da ferida, feita com a entrada da faca do matador, que picaria o coração do suíno e o faria morrer.
Antes do inicio das tarefas, pesticavam-se uns bocados de bacalhau assado temperado com alho e bastante azeite, a pingar em cima do pão de trigo cozido especialmente para esses momentos, bebiam-se uns tintos ou uns brancos, às vezes um abafadinho ou um cálice de aguardente com açúcar e depois lá iam direitos à pocilga, onde o porco olhava inocentemente o cocho vazio, uma vez que na véspera lhe não era dada qualquer refeição, para que ficasse mais limpo de intestinos, o que facilitaria depois a preparação da limpeza das tripas.
Abria-se a portinhola da pocilga e dois homens lançavam as mãos às orelhas do suíno que reagia invariavelmente, chiando e fazendo marcha-atrás e não raro também, tentando atingir com os dentes quem o queria agarrar assim tão rudemente.
Aproveitava-se a boca aberta do bicho para nela enfiar a corda que o matador transportava atravessada sobre os ombros, o que permitia controlar melhor o bicho..
Era laçada uma das patas traseiras e ora puxando, ora empurrando, lá se ia chegando o porco para junto da banca onde se procederia à matança, não raro, a dona da casa levava à frente do bicho um saquinho com grãos de milho, para o enganar, dizendo-lhe: chaninho, chaninho, chaninho, ao mesmo tempo que ia deitando uns grãozito para o chão… e o pobre do animal lá ia ao engano pelo seu pé, até ao local em que seria sacrificado.
Lá chegados, o momento era de extremo cuidado e expectativa … a uma voz, quatro ou cinco homens deitavam as mãos ao animal e lançavam-no para cima da banca que entretanto alguém inclinava para a frente, para facilitar a operação da aproximação do porco à mesma, depois era necessário que as mãos calejadas pelo trabalho no campo, agarrassem firmemente e com mãos de se ver o bicho, evitando ser por ele mordidos, ou que alguma das aguçadas unhas pudessem apanhar alguém, em local menos próprio, onde poderia fazer estragos mais ou menos graves.
Bem preso o animal, o matador raspava os pelos com a afiada faca no local da incisão e de seguida, enfiava a mesma entre os ossos do tórax, na direcção do coração da vítima, era o início do fim.
O porco chiava aflitivamente e o sangue começava a correr para dentro do alguidar de antemão preparado, algumas vezes o animal morria rapidamente, o que não era desejável pois isso não permitia que saísse o sangue que se entendia necessário, para fazer os negritos e para melhor conservação futura das carnes…
Aos poucos o estertor do bicho ia diminuindo… às vezes um último assomo de vida parecia voltar e ouviam-se mais uns grunhidos, que logo de seguida baixavam de intensidade, até que o porco restava finalmente morto, enquanto uma das mulheres que recolhera o sangue continuava a mexê-lo para que não coalhasse.
Às vezes nós os mais novos, impressionados com a violencia daquele acto, lá deixavamos escapar um condoído coitado...no que eramos de imediato repreendidos pelas mulheres que se apressavam a dizer-nos: não digas isso, porque senão ele leva mais tempo a morrer.
Quando finalmente o porco morria, o matador pegava numa rodilha branca bem limpa e introduzia-o pela abertura feita no peito do suíno, cortando o excesso e metendo com a ponta da faca bem para dentro, o pano que se tinha cortado.
Não se pense que a morte do porco era rodeada por extremos de malvadez e desejos sádicos de o fazer sofrer, não, tudo isso fazia parte de um ritual a que a prática ancestral dera razão de existir.
Depois o animal era deitado no chão… iria ser chamuscado. O mato para chamuscar o porco depois de morto: o tojo, a urze, a marganiça, a carqueja e os engaços para fazer a raspagem dos pelos queimados, tinham já sido antecipadamente preparados pelo dono da casa na semana antecedente.
Alguém largava entretanto o fogo a umas vides ou cepas que se mantinham por perto sempre vivas e nessa fogueira iam sendo sucessivamente acesas as paveias de urze, tojo e marganiça, enfiadas nos dentes de uma forquilha e passava-se com essa chama ao longo do corpo do suíno.
A operação ia sendo repetida, tendo-se o cuidado de não queimar demasiado o toucinho, que rachava com o excesso de calor.
Logo que o calor atingia o ponto necessário, alguns dos homens rapidamente começavam a raspar os pêlos queimados, uns com bocados de carqueja, outros com engaços guardados da última vindima e alguns com bocados de telha não afiados, ou uma navalha velha para não fazer cortes no toucinho, e todos rapidamente iam deixando o porco devidamente limpo, depois de ter sido devidamente chamuscado.
Alguém se disponibilizava também, para a limpeza das orelhas do animal o que não era tarefa fácil e se guardava para os especialistas…
Com uma enxada retiravam-se da fogueira algumas brasas, que se colocavam no interior das orelhas uma de cada vez e quando se pensava que já teriam feito o seu trabalho de queimar os pelos e dar alguma consistência à carne, as brasas eram retiradas dando umas pancadas nas orelhas e depois com uma faca ou uma navalha, iam-se limpando as mesmas lançando repetidamente água com um regador, até ficarem suficientemente limpas e raspadas.
Outros preparavam também os pés do porco : colocavam antes uma telha sobre a parte do pé que ficava por baixo, para que não apanhasse calor demasiado e chegava-se o lume às unhas de cima, quando o calor já era suficiente, retiravam-se as unhas puxando por elas, à mistura com umas queimadelas que nem as mãos calejadas evitavam e muito à sucapa tentavam metê-las dentro dos bolsos dos mais distraídos, brincadeira que era sempre recebida com boa disposição…e mais uma rodada para molhar as gargantas secas pelo fumo e pelo calor.
Quando um dos lados estava preparado, ou seja devidamente chamuscado e limpo, virava-se o porco e fazia-se tarefa idêntica do lado contrário.
Entretanto ia sendo despejada água sobre o animal enquanto se raspava e limpava, até o toucinho ficar limpinho e com a textura considerada óptima.
Quando finalmente o porco estava devidamente limpo passava-se à fase seguinte. O animal era retirado do chão e colocado sobre a banca onde era então feita a limpeza mais minuciosa e raspados os últimos pelos que ainda pudessem ter resistido à acção do claor.
Um dos homens limpava o resto dos excrementos que estavam dentro da zona anal, num processo não muito higiénico aparentemente, pois era feito com os dedos e no fim era cortado um bocado de uma rodilha que era enfiada no ânus do porco e bem metida para dentro, transportando-se de seguida o animal na banca armada em padiola, para um lugar onde se procederia no dia seguinte, à desmancha do porco.
O matador que era normalmente um homem com muita prática de matar e fazer tudo o que se relacionava com o trabalho posterior, para além do corte já referido à volta do ânus, caso se tratasse de um porco macho, procedia também a uma incisão à volta do pénis do animal.
Fazia-se depois uma incisão desde a zona por debaixo da boca do porco e pelo meio da barriga até à parte traseira junto o local que já tinha sido cortado.
Deslocava-se a carne que cobria as queixadas do bicho e abria-se a barriga e retiravam-se as tripas para dentro de um alguidar de barro suficientemente grande para as poder recolher e era dada aos mais pequenos, uma coisa pela qual haviam esperado ansiosamente: a bexiga do porco, na qual era de seguida pelos mais velhos introduzido um pequeno caniço por onde se sopraria para o enchimento, enquanto se iam dando com a mesma umas pancadas numa parede, para que esticasse e ficasse mais volumosa.
Depois, seguia-se invariavelmente uma jogatana de futebol, até que a bexiga com muita pena da gaiatada finalmente rebentava, o que nos levava a que procurássemos outra brincadeira.
Normalmente, um dos homens ia retirando as gorduras que envolviam as tripas, que eram guardadas para pôr no alguidar dos negritos e as tripas depois de limpas exteriormente, eram entregues às mulheres que partiam para junto de um curso de água ou de um poço, afim de procederem à limpeza interior das mesmas, para que depois fossem usadas para encher as linguiças, os negritos e as morcelas.
Eram também usadas para fazer as chouriças de carne, tripas de vaca que se compravam nas mercearias da terra, ou na vizinha cidade das Caldas, já devidamente curadas e preparadas para o efeito.
A limpeza das tripas era feita mais ou menos da seguinte maneira...: uma das mulheres ia cortando pequenos bocados de tripa que ia dando às suas companheiras de faina, estas pegavam-nas por um dos lados e aguardavam que com um regador fosse sendo vazada água pelo interior da tripa, fazendo com que a sujidade fosse saindo pelo outro lado, esta tarefa de deitar a água com o regador, era muitas vezes feita por algum dos miúdos e muitas vezes me calhou fazer esse trabalho e não se pense que era fácil, pois normalmente como essa tarefa era feita no Inverno, as mãos e os pés não deixavam de ficar enregelados .
Depois de várias operações de vazamento de água e depois de concluir que o interior já estaria suficientemente limpo, a tripa era virada num caniço previamente espetado no chão junto ao local da lavagem - daí advém certamente o dito de chamar então… pau de virar tripas, às raparigas extremamente magras.
As tripas depois de bem lavadas, eram metidas num alguidar de barro vidrado, o plástico ainda não tinha feito a sua aparição e nas mesmas era colocado sal, rodelas de limão e laranjas, sendo depois muito bem esfregadas.
Finda a tarefa, as lavadeiras das tripas voltavam a casa, enquanto que outras iam já tratando da ceia, que no primeiro dia constava especialmente do popular e apreciado sarrabulho.
Na preparação do porco os homens, normalmente o matador ou outro devidamente especializado pela prática, iam cortando alguns bocados de carne mais gorda - os bichos, que juntamente com o fígado e o pâncreas, serviriam para o sarrabulho.
Entretanto ia-se limpado o interior do porco, retirando-se a língua, o coração e os pulmões que ficariam para o cozido do segundo dia da matança.
Quando retirava o coração, restava sempre algum sangue na caixa torácica e então, alguém vazava vinho branco sobre o coração e o homem que estava a tratar do porco, lavava a caixa com o mesmo coração enquanto iam vazando a tal mistura de vinho com água, ou água-pé e no fim esta mistura de vinho e sangue era adicionada à carne dos negritos e a caixa torácica era devidamente limpa com um pano de algodão muito bem lavado, normalmente de cor branca (por expressar melhor a higiene, com a brancura…).
Depois de retirar os pulmões, normalmente o homem ia cortando os diversos órgãos interiores e entregava-os a alguém ou ele mesmo fazia,
enquanto ia invariávelmente dizendo para quem o acompanhava: se queres ver o teu corpo, mata um porco.
Limpava depois muito bem a entrada da traqueia e soprava com força enchendo os pulmões do porco para que ficassem bem esticados, no fim picava-os com o bico da faca e os mesmo iam perdendo o ar, sendo posteriormente entregues a uma das mulheres, que já havia recolhido o coração, para seguirem para a cozinha afim de serem adicionados no dia seguinte ao cozido - que era o prato principal da matança do porco e do qual constava normalmente: o coração, os pulmões, que na aldeia se chamavam de bofes, a língua e alguns bocados de carne limpa do lombo, alguns bocados de toucinho mais magro, o rabo (se não tivesse sido assado e comido logo a seguir à matança do porco), as orelhas, alguns ossos e as partes da cabeça do animal, incluindo as queixadas e ainda algumas linguiças e negritos que tivessem sobrado da matança anterior, ou que se pediam emprestadas a algum familiar ou vizinho.
O porco era então preparado para ser dependurado, afim de que todo o sangue escorresse, pois a carne para ser salgada e metida nos salgadores, ou salgadeiras como também se chamavam, não podia estar suja de sangue.
Era usado para pendurar o animal, um pedaço de madeira, normalmente retirado de uma tranca de oliveira ou outra madeira rija, que fazia um pequeno ângulo e que na minha aldeia de chamava de escápula.
As pontas eram um pouco cavadas para que o porco não caísse e no ângulo levava uma corda que servia para pendurar o porco nalguma viga ou barrote bem forte e atá-lo de forma a ficar com o focinho acima do chão e permitisse a colocação de um pequeno alguidar, que iria receber o sangue que escorreria nas horas seguintes.
Para pendurar o porco, descobriam-se nas partes traseiras das pernas as linhas, assim se chamava aos nervos e era por esses nervos que o cadáver ficava pendurado na escápula.
O porco era aberto para os lados com umas canas espetadas na barriga do animal de lado a lado e sobre essas canas ficavam penduradas as banhas, que posteriormente seriam colocadas numa panela ao lume para que fosse retirada a banha à qual se juntava um pouco de colorau e sal. Estas iam derretendo aos poucos e uma das mulheres ia vazando a gordura para dentro de umas púcaras de barro vidrado, de onde se retiraria posteriormente sempre que necessário, para servir de tempero durante grande parte do ano.
O que sobrava da banha e ficava na panela eram os torresmos, os quais se aproveitavam também ao longo do ano, quando se cozia o pão para fazer umas pequenas merendeiras de trigo ou milho, também chamadas na minha aldeia de brendeiras que eram um bom petisco, sempre muito apreciado.
No segundo dia ao da matança, logo pela manhã, juntavam-se os homens à volta do matador para proceder à desmancha do porco.
Aos poucos iam sendo cortados os lombos, normalmente conhecidos por febras, sendo algumas delas cortadas em pequenos bocados que se colocavam no alguidar das linguiças, também chamadas de chouriço de carne e que eram depois temperadas com sal, vinho branco, colorau, alhos, louro, cravinho, tendo o cuidado de todos os dias de manhã e à noite se mexerem as carnes que repousavam e ganhavam gosto no alguidar e ao fim de oito dias convocavam-se as mulheres da família, para proceder ao enchimento das tripas, ao mesmo tempo enchiam-se também aos negritos ou chouriços de sangue que eram feitos com gordura e sangue e eram temperados com vinho branco, cravinho, louro e sal.
Faziam-se ainda as morcelas, para o que se usavam as tripas grossas, sendo feitas a partir de alguma gordura, sangue, arroz e depois cozidas, as morcelas teriam que ser comidas dentro do menor tempo possível, ao contrário das linguiças e negritos que eram colocados e curados no fumeiro durante alguns dias, havendo o cuidado de durante esse tempo se ir fazendo pequenas fogueiras no local, para que eles fossem aos poucos ficando curados.
Depois havia quem as conservasse em azeite, ou as fosse deixando no fumeiro, de onde iam saindo à medida que iam parar dentro da panela, ou se retirava uma ou outra para assar e comer com os amigos na adega, nas tardes chuvosas de Domingo, enquanto se iam bebendo uns copitos do bom tinto ou branco da safra anterior, tirado do pipo pelo espicho.
Os ossos eram salgados e metidos na salgadeira e o mesmo se fazia com o toucinho que era cortado aos pedaços, esfregado com sal e colocado uns por cima dos outros entre camadas de sal. Era uma operação que exigia um certo critério, pois se o toucinho não fosse devidamente tratado, acabava por ganhar ranço e deixava de servir com a qualidade exigida para temperar a panela (ainda me cresce água na boca, só ao lembrar como era boa uma sopa de feijão encarnado com arroz, temperada com um bom naco de toucinho com febra).
As salgadeiras eram feitas normalmente de grandes vasilhas de barro vermelho vidrado, mas havia também quem as tivesse talhadas em pedra, ou feitas em madeira, tipo arcas, eram assim em madeira, as salgadeiras do meu avô Maximino, carpinteiro de profissão.
Habitualmente aquando da desmancha, faziam pequenos lotes -a assadura, constituídos por um bocado de toucinho, um bocado de carne limpa (febra) e um osso com carne, que servia para presentear alguns familiares e amigos, gesto que seria retribuído mais tarde quando os que eram presenteados, matassem também o seu porquito.
Era normal aquando da matança do porco, haver já na pocilga um outro mais pequeno que se estava já a engordar para a matança do ano seguinte.
Um porco era uma bênção de Deus, estava nele a garantia de comida para muito tempo, para toda uma família.
Maximino
(Fotos do Blog da Travanca)
Comentários:
Matança do porco
Meu caro amigo. Não tenho palavras. Se usasse chapéu diria simplesmente – tiro-te o meu chapéu. Depois de ler este tratado fiquei com os olhos postos no horizonte, de boca semi-aberta, para não me faltar o ar, e o pensamento distante, algures nos anos quarenta e cinquenta até meados dos anos sessenta, fazendo repassar pela memória situações idênticas, senão iguais, a que muitas vezes assisti e participei.
Todos os anos em minha casa, casa do meu pai, e aí até aos meus dezasseis anos, aquando ganhei asas e voei para outras paragens, se matava um porco, invariavelmente em Dezembro ou Janeiro.
Passava-se o ano todo a alimentá-lo, exactamente como descreves-te e com essas mesmas comidas, acrescento somente a lavadura (restos da nossa comida e de mais alguns vizinhos e amigos que se iam armazenando num bidão). Resta acrescentar que após o ritual da matança a pocilga era limpa, lavada e seca e levava palha nova de centeio, trigo, milho e tojos ou piornos, formando um pavimento mais quente e confortável, ficando assim preparada para receber os novos inquilinos, geralmente dois leitões acabados de desmamar, não fosse o diabo tecê-las e morrer algum durante o crescimento, recomeçando o ritual para a matança do ano seguinte.
No meu caso, como a habitação ficava num dos centros da aldeia, a pocilga foi construída a mais de um kilómetro de distância, no campo, sendo necessário levar-lhe todos os dias o comer para lhes encher o cocho, o que não era feito sem que primeiro fosse lavado. Por outro lado esta distância obrigava á colocação de um arganel, anel de arame que se coloca no focinho dos porcos para impedir que focem, não permitindo assim que abrissem no chão um buraco por onde pudessem fugir.
No dia antes da matança, a casa e quintal eram devidamente limpos e arrumados e toda a panóplia de apetrechos inerentes eram escrupulosamente deixados nos respectivos locais, os mais convenientes ao bom andamento do ritual do dia seguinte. Como não havia água canalizada a mesma era retirada de um poço através de um balde e respectiva corda envolvendo força braçal e tempo bem como recipientes receptores em abundância.
No dia da matança, tal como descreves-te, ia-se buscar o mártir para o altar do sacrifício.
Usava-se como acondicionadores da carne as salgadeiras, feitas em madeira, sendo os enchidos pendurados na chaminé.
Poderias, talvez, descrever melhor, mais pormenorizadamente, o ambiente social que era vivido pois que, por exemplo entre outros, durante a faina desenvolvida pelas mulheres de fazer enchidos, os homens ficavam sem nada para fazer e entretinham-se, á luz de candeeiros a petróleo, comprado ao petrolino ambulante, a jogar cartas, sueca de preferência, beber uns tintos, ou brancos, ou qualquer outra bebida espirituosa, que os invernos eram rigorosos e faziam tremer o queixo. E, como dinheiro não havia, os vencedores das rondas, quatro jogos marcados com riscos verticais num papel e um quinto jogo fechando a ronda, com um risco traçando os outros quatro, eram premiados com… como não há pastelinhos de bacalhau, nem croquetes e muito menos rissóis… vai mais um copinho.
Nota: A descrição que o Maximino colocou no post pode, numa primeira análise, parecer cruel, mas convém mencionar que toda a carne, peixe e vegetais, bases imprescindíveis da nossa alimentação, tiveram todas elas, um dia, vida. Assim sendo torna-se o texto e a sua descrição mais natural.
Um abraço e… venham mais descrições de tradições perdidas mas não esquecidas.
A.Justiça..........22-07-2010
Que Grande texto. Para a posteridade!
Paulo Caiado.......22-07-2010
Como também eu vivi os quadros tão bem descritos quer pelo Maximino quer pelo A. Justiça, não posso deixar de felicitar ambos pelas preciosas peças que escreveram para benefício de todos os visitantes do blog do Zé Ventura !
Só me permitiria acrescentar uma experiência por mim vivida numa matança em casa dos meus avós paternos, na Matoeira, uns 55 anos atrás.
Para que o "rapaz" fosse adquirindo a resistência aos quadros algo "pesados" da matança e da desmancha, fui encarregado de segurar num alguidar onde iriam ser depositadas as queixadas e o osso do peito do bicho. Essas coisas extraíam-se antes do porco ser pendurado, para enxugar.Ficava então pendurado numa "escápula", donde só descia no dia seguinte, para ser desmanchado.
Só que, o rapaz estava ainda em jejum e tanta era a atenção com que seguia a operação que ...desmaiou, deixando cair o alguidar, para gáudio dos graúdos que se envolviam no trabalho "cirúrgico"!
Prossigam, amigos, na evocação destas e doutras tradições do nosso povo ! Daqui a uns anos, ninguém restará para as recordar, com a autenticidade de quem as testemunhou e mesmo nelas participou !
Abraço do
Noronha Leal........22-07-2010
Maximino, de repente voltei atrás meio século. Todo este ritual se repetiu vários anos no centro do meu quintal até meados da década de 60. A descrição, os detalhes, os nomes exactos das coisas, a viagem até ao rio para preparar os enchidos, a bexiga melhor que os balões de hoje. Está tudo aqui.
Magnífico meu amigo.
J.L.Reboleira Alexandre......22-07-2010
Perfeito, uma descrição que só pode ter este epíteto.
Era e ainda é, de certa maneira, o que se passava na matança do porco.
Muitos parabéns Maximino
Filipe Domingos........22-07-2010
Olá amigo, boa saude em primeiro lugar...
Obrigado pela vossa atenção que me têm dado, eu sei que sou bastante maçador,mas o que vale é que há sempre alguém paciente para aturar esta praga...
Obrigado Zé por teres enriquecido o texto com as fotos, mas já agora envio-te uma foto onde eu sou personagem também...esse jovem de barbas à cabeça do bicho...sou eu
Um abraço
Maximino
Descrição perfeita do Maximino, como era a matança do porco na aldeia.
Na minha não se usava a faca mas sim o "ferrão", o qual era aplicado, "ferrado" até ao coração.
Junto umas fotos que, creio ser entre 1978/1980.
J.Santana Marques........22-07-2010
Ainda bem que consegui despertar as vossas memórias...aconteceu comigo a mesma coisa, à medida que ia desfiando as recordações..."ia vivendo" as acções...
É verdade amigo Justiça, esqueci "as lavaduras" que na minha aldeia eram mais provenientes das lavagens dos utensílios onde se fazia a comida e se comia a mesma, do que propriamente dos restos, porque nesse tempo raramente havia restos na maior parte das casas...não havia faltas, mas era tudo muito melhor administrado...
Obrigados aos amigos Justiça, Caiado, Noronha, Reboleira, Filipe e como não podia deixar de ser...ao nosso Zé Ventura...
E em relação as fotos que o Santana enviou, retratam uma outra maneira de matar o porco algo diferente da usada na minha aldeia..
Achei engraçado os comentários colocados nas fotos...: a boca atada para "faltar o ar" ao bicho e possivelmente (pensava ele...) levá-lo a morrer mais rapidamente...
Mas não... a boca atada era para evitar "experimentar" os dentes do porco...!!!
Um abraço para todos vós...
Maximino...............23-07-2010
Amigo Maxmino, simplesmente magnifico este post "Parabéns"
Assim como todos os últimos textos que têm sido perfeitas lições de participação bem haja a todos.
Resolvi participar neste porque mexeu mais comigo, embora ter sido um menino de cidade, tive porém a sorte de assistir a muitas matanças de porco, porque nesse tempo a minha mãe tinha algumas raparigas a trabalhar para ela, que eram das redondezas das Caldas,(Couto, Tornada,Alfeizerão) e os seus pais matavam porcos todos os anos, então a patroa e familia era sempre convidada para tal acontecimento, onde eu o (menino) ia no dia antes dormir a casa delas para assistir a toda essa preparação e festa, que para mim de facto era uma festa.
Como o amigo Maxmino a descreve e bem.
Mais tarde, cada vez que ia a Portugal, o meu sogro em Aveiro também mateve essa tradição por alguns anos, com a simples diferença de matar no verão para nós termos fartura, isto nos anos setenta, já eram outros tempos.
Assim como tive um ano em Portugal que um primo meu de Aveiras de Cima, fez uma festa de despedida na sua adega, para mim e familia, que juntou um grande numero de amigos e familiares, onde mataram três porcos, não muito grandes claro, entre eles um era "mudo" o qual não chiava nem rosnava, era mais pequeno do que os outros, então um amigo deu par esse dia.
Isto é só para também mostrar a diferença dos tempos e da fartura, nos tempos de cinquenta, matava-se para abastecer as casas e familia e dar de comer para o ano, quinze anos mais tarde, já se matava por festa e para manter a tradição.
Excelente trabalho amigo Maxmino.
Um abraço para todos
Antonio Abilio ...............24-07-2010
segunda-feira, 19 de julho de 2010
Atletas de elite
quinta-feira, 15 de julho de 2010
O Sr. Custódio
A estória que vou contar nada tem a ver com Alunos Bordalo a não ser, e apenas, por fazer parte dos horizontes da memória deste Aluno Bordalo que fui e… perdoem-me a imodéstia, continuo a ser.
Com esta estória pretendo apenas “destacar” e levar ao vosso conhecimento, uma pessoa divertida, alegre, simples como só as pessoas do povo profundo são simples, que tratava os jovens por meninos e os adultos por senhor.
Quando conto uma estória de vida procuro que a mesma tenha algum ensinamento, seja ele na forma de um ditado popular, provérbio ou, como este que vos vou entregar, uma chamada de atenção para o facto de que não nos devemos distrair ou abstrair daquilo que se passa à nossa volta… isto porque nos últimos anos temos andado muito distraídos e só por isso o nosso País se colocou à beira do abismo. Esta é a estória do Sr. Custódio.
O Sr. Custódio era, era não, foi, - pois já não se encontra entre nós há muitos anos, - tudo isto, brincalhão, risonho, educado embora, penso, não saber escrever ou ler, falava com todos e todos lhe falavam, possuidor de um lato saber que só a idade e a experiência de vida pode doar mas… há sempre um mas… tinha uma devoção extremamente dedicada à pinga, tinto de preferência, que se a mesma devoção fosse dedicada a Deus era mais Padre que muitos Padres e hoje estaria canonizado.
Ora o Sr. Custódio todos os dias de Verão, ao fim da tarde, saltava para cima da sua carroça carregada com bidões e baldes, sentava-se no banco - que mais não era do que uma tábua atravessada de lado a lado da carroça - puxada por uma mula que, - bem acompanhada pelas suas moscas particulares e sempre fiéis, - de tantas vezes fazer o percurso já o sabia de cor e se tornou nos olhos de ambos, sabia quando andar e por onde ir e quando parar, enquanto o dono, sentado no seu lugar, dormitava e ambos lá iam realizando uma das suas múltiplas tarefas diárias.
Esse trabalho consistia em ir de casa em casa, restaurante em restaurante, hotel em hotel e recolher a lavadura, que como sabem, consistia de restos de comida que depois de colocados nos recipientes da carroça eram transportados e despejados nos “cochos”, comedouros próprios para porcos, onde a sua pequena vara de porcos, “fuçantes” e esfomeados, se encavalitavam uns sobre os outros na conquista de um lugar para se refastelarem a comer.
(Todos os anos, em alturas próprias, se matava um ou dois e a sua carne e afins, tudo no porco é aproveitado, depois de devidamente acondicionados em salgadeiras, serviria para alimentar a família.)
Mas para cumprir esta tarefa de recolha, havia num senão… é que ao longo de todo o trajecto, desde a saída de casa, situada quase na periferia da aldeia, até ao regresso havia inúmeras tabernas e cafés, ora à esquerda ora à direita da estrada e que eram locais de paragem obrigatória, não que o Sr. Custódio parasse a carroça, não era preciso, a mula que era
conhecedora destes costumes parava por ela própria e o Sr. quando a carroça parava abria os olhos para identificar o local, não fosse a mula fazer batota e ter saltado uma paragem, saltava do seu lugar e ia restabelecer o nível de “tintol” no depósito com um “copo de três”.
Ora uma bela tarde no fim de mais um dia de Verão, já no regresso a casa para ele e ao curral para ela, faltavam apenas mais dois postos de abastecimento, fornecedores desse liquido abençoado pelos Deuses, a Dona Mula, ou por cansaço, ou por fome, ou por tédio resolveu não parar num dos postos. Só que esse era especial, o produto era mais rico em octanas e porque defronte havia uma árvore e a mula só parava quando encostava a cabeça na árvore e ali ficava com a cabeça encostada até que o seu dono acordasse, descesse, abastecesse e regressasse do posto de abastecimento.
Mas ela nesse dia continuou caminho, olhou de lado para a árvore e, ou não estava com paciência para ficar ali de castigo com a cabeça encostada à árvore e orelhas de burro, ou estava com pressa, provavelmente aborrecida por não ter encontrado nenhum “mulo” para um bate-papo… eu sei lá as razões.
Por instinto ou porque o tempo decorrido desde a paragem anterior lhe parecesse mais longo que o habitual, o Sr. Custódio abriu os olhos, puxa as rédeas obrigando o animal a parar e exclama em alta, roufenha e “envinhada” voz a frase que ficou celebre e que hoje, na aldeia e julgo que até esta minha geração durar, será sempre utilizada para admoestar todos quantos se distraem das suas obrigações, ou simplesmente não reparam numa “bomba” de belo corpo e um palminho de cara a passar por perto, o que não deixa de ser também uma obrigação o devido préstimo de atenção…
ABRE OS OLHOS MULA QUE JÁ É DIA…
A. Justiça
Comentários:
Abre os olhos mula...!!!
Boa história amigo Justiça...!!!
Já que não se contam as histórias passadas na Escola com os colegas, vão-se contando as histórias que um ou outro conheça...
Mais dia menos dia, vão começar os nossos colegas a contar as suas vivencias passadas...
Abraço
Maximino...........16-07-2010
Leva a comida para o cocho do porco, Zé!
Quantas vezes eu ouvi esta frase autoritária, vinda de meu pai ou de minha mâe. No entanto a palavra «cocho» escrita desta forma, e com este significado, estava totalmente esquecida, e este belo texto do Justiça fê-la reaparecer como por encanto.
Só nós miudos da aldeia pudemos viver paredes meias com porcos, burros, éguas (o Mercedes da época, que o dono do burro estaria hoje ao nivel do dono duma pequena cilindrada), galinhas, coelhos, sei lá. A lista era infindável. A matança do porco, no nosso caso motivo para peregrinação a pé até Alfeizerão, onde iriamos encontrar os nossos primos, que até certa altura apenas viamos nessas ocasiões.
Existência muito mais rica afinal do que a dos miúdos da cidade que já viviam em apertados apartamentos. Nós tinhamos o campo todo para nós e também éramos felizes e despreocupados, até aqueles cuja existência seria um pouco mais dificil! Há um personagem da minha aldeia e da minha idade, infelizmente já desaparecido, que merece uma crónica, e que, prometo, logo que para isso tenha tempo, trazê-la para aqui. A sua meninice foi tão pobre e ao mesmo tempo, tão rica que, vão ver, vale a pena!
J.L.Reboleira Alexandre..........16-07-2010
Parabéns amigo Justiça Excelente estória.
Todas estas estórias são passagens dos nossos tempos de escola.
Obrigado.
Um abraço
Antonio Abilio.........24-07-2010
terça-feira, 13 de julho de 2010
Alunos de 1954
O António Marcos, (ex- proprietário da Sapataria Lisboa, ainda se lembram) encontrou no seu álbum de recordações estas fotos.
Não há muitos pormenores sobre elas, apenas que datam de Abril de 1954 e possivelmente foram tiradas durante uma pausa da visita que estes alunos efectuaram a Coimbra.
domingo, 11 de julho de 2010
A Bateira da Lagoa de Óbidos
Tenho andado a escrever algumas notas para deixar para os meus netos...
Entre elas algumas coisas escritas sobre a Bateira...
E possível que esteja com um português um pouco arrevezado, pelo facto de umas vezes ser escrito no passado e outras no presente, mas talvez mesmo assim tenha algum interesse para alguns que pouco saibam sobre a Bateira.
Para os que saibam mais do que eu, façam o favor de acrescentar o que quiserem...
Um abraço
Maximino
A bateira é o barco típico da Lagoa de Óbidos, falarei dela algumas vezes no passado, pelo facto de que ainda existindo, já não serem tratadas como nos meus tempos de miúdo, nem serem locomovidas como então, uma vez que o são agora normalmente por motores fora de borda.
É um barco de fundo chato com cerca de 6/7 metros de comprimento, com a popa – ré – cortada e que tem por cima um pequeno estrado fixo, onde se colocava o homem que tocava a bateira à vara, ou pé de cabra – o pé de cabra era uma vara comprida de 5/6 metros que na parte de baixo tinha pregada um bocado de madeira saída para o lado como se fosse um pé e que servia para não deixar que a vara se enterrasse demasiado nos fundos lodosos da Lagoa, o que levantaria dificuldades acrescidas ao individuo que tocava a bateira, uma vez que ao fazer força, a vara se enterraria no lodo e quando a quisesse puxar, travaria a marcha da bateira.
Na parte da frente à popa, uma cobertura abaulada com cerca de 1,50 de comprimento, que tem uma cercadura em madeira à volta e dois pequenos orifícios que vazam para fora e servem para o escoamento da água com que se lava a parte de cima da proa, novamente para dentro da Lagoa.
Debaixo desta cobertura se guardava o garrafão e o farnel, não só de quem trabalhava na Lagoa, mas também daqueles que de quando em vez usavam a bateira para se dirigir à Foz do Arelho, para passar uns agradáveis momentos, numa pausa dos trabalhos árduos do campo.
O esqueleto da bateira, a que se chama cavernas e onde são pregadas as tábuas que servem de fundo e de lado à própria bateira, são normalmente feitos a partir de ramos de pinheiro manso, porque as trancas dessa variedade de pinheiro permitem a adaptação para esse uso.
Normalmente começa-se a sua construção, colocando as cavernas de um lado e de outro e encontrando-se paralelamente, na zona que será posteriormente o fundo da bateira, depois é pregada uma tábua nesse mesmo fundo e outra de cada lado das cavernas e é dada a forma inicial à bateira, afinal não deve diferir muito da maneira usada par construir outros pequenos barcos, noutros locais do País.
Vão seguidamente sendo pregadas todas as tábuas – em madeira de pinho bravo – até se completar a bateira. As frinchas entre as tábuas são depois vedadas com estopa e finalmente é tudo impermeabilizado com breu.
O breu é um subproduto do petróleo e é vendido em forma de pequenas pedras pretas que são colocadas sobre o fogo a derreter, numa panela de ferro de três pés - e a forma de saber se o breu estava no ponto para o uso na bateira era o seguinte: quem preparava o produto, deitava uma cuspidela para dentro da panela e mexia com um pau, se se ouvisse o ruído característico de matéria gorda a frigir, estava no ponto e podia ser aplicado com pincéis no costado e no fundo exteriores da bateira.
Depois a bateira era colocada dentro de água para que a madeira pudesse inchar e ficar impermeabilizada e pronta para flutuar.
Hoje já não se usa o breu e por isso me referi à sua aplicação no passado, pois hoje existem no mercado produtos que fazem a impermeabilização em condições melhores que o breu e também são usadas tintas modernas, mais apropriadas por terem menos toxicidade, para poderem ser usadas na Lagoa.
Também o uso de motores na bateira, levou a pequenas alterações na ré, deixando de ter o pequeno estrado fixo para a colocação do homem que empurrava a bateira à vara, para ter um reforço onde se coloca o motor .
A bateira como não ficava perfeitamente estanque, acabava por meter alguma água, inclusive da chuva e para retirar essa água era usado o bartidoiro, que creio dever ser mais correctamente chamado de vertedouro, uma vez que servia para verter a água de dentro da Lagoa para a bateira para a lavar e depois retirar essa mesma água dos fundos da bateira, entre os espaços das cavernas e devolvê-la à Lagoa.
Presentemente são raras as bateiras que ainda possuem o referido bartidoiro, pois presentemente usam garrafões de plástico de cinco litros que cortam de maneira a poderem ser usados para o fim em causa.
O fundo da bateira tem normalmente uns estrados para facilitar a locomoção das pessoas dentro da mesma, que são amovíveis e o fundo não é completamente coberto para possibilitar a extracção da água que corre de espaço para espaço, porque as cavernas têm dois pequenos cortes de cada lado virados para o fundo da bateira, para que a água possa transitar entre eles.
As bateiras eram também movidas a remos, mais leves os que eram usados pelos varinos sentados num banco transversal, quando andavam na faina da pesca para facilitar a colocação de redes e galrichos.
- Os varinos eram homens oriundos do norte de Portugal, que viviam em pequenas barracas feitas de caniço na beira da Lagoa.
Ganhavam a vida praticando a pesca da enguia, que apanhavam através de galrichos e ainda de tainhas e outras variedades de peixe que apanhavam nas suas redes de emalhar.
Depois vendiam ou trocavam por produtos da terra o peixe apanhado, nas outras aldeias limítrofes da Lagoa .
Para usar a bateira como meio de transporte, eram usados também dois remos mais pesados e colocados dois bancos na bateira, onde se sentavam os remadores.
Para ancorar a bateira, era usada uma pedra envolvida por dois troncos laterais e um na base, com as extremidades salientes, aos quais era atada uma pedra que servia de ancora – a que se dava o nome de poita .
Quando era necessário manter a bateira parada, lançava-se à água a poita e a bateira ficava mais ou menos imobilizada pela acção não só do peso da pedra, mas também da tracção provocada nos fundos da lagoa pelos troncos salientes, presentemente, são usadas ancoras feitas de ferro.
Hoje já existem muito poucas pessoas que sejam capazes de construir capazmente as bateiras, que pouco a pouco vão sendo substituídas por pequenas lanchas de fibra de vidro.
Ainda nos finais dos anos cinquenta do passado século vinte, as bateiras eram usadas para a apanha do limo (moliço) na Lagoa.
Esta prática perdeu-se de vez nos inícios dos anos sessenta, não só pelo facto de o limo começar a rarear na Lagoa pela acção do assoreamento e crescente poluição, mas também pela ausência dos homens que normalmente trabalhavam na agricultura e na Lagoa, uns porque emigraram à procura de melhores proventos e outros, os mais novos, por terem sido enviados para a guerra que ao tempo tinha começado nas distantes terras de África, que eram colónias portuguesas
Comentários:
Maximino
Quando referes as partes principais inerentes a uma embarcação as mesmas são, popa e proa, estibordo e bombordo. A ré refere o sentido da marcha, é por isso um movimento – avante, para a frente, á ré, para trás.
Embora não se encaixe no teu texto, outra dúvida que tenho reparado em conversas de marinheiros, principalmente amadores, é a confusão que fazem ente milhas e nós. Milhas refere distância e nós refere velocidade, pelo que não se deve dizer que uma embarcação se desloca a tantas milhas por hora mas sim a tantos nós por hora.
Como pediste ajuda para o teu texto aqui fica o meu comentário.
Resta-me dar-te os parabéns por este exercício para memória futura. Nunca me lembraria escrever algo destinado a descrever a Bateira de Óbidos, (embarcação de fundo chato e pequenas dimensões desprovida de quilha) sua construção e “modus-operandi”.
Um abraço
Obrigado pelo comentário amigo Justiça...
É claro que alguns termos técnicos me faltarão, mas também é bom que tenhamos em conta que na Lagoa de Óbidos em referencia ao tempo que descrevo, os pescadores e apanhadores de limo desconheciam em maioria os termos de bombordo e estibordo...
É possível que hoje, os possuidores de bateiras, porque já providos de licenças específicas saibam o que é isso, mas também ao tempo a que me reporto mais, isto é antes do aparecimento dos motores fora de borda, mesmo que houvesse um ou outro "encosto" entre embarcações, nunca o perigo era de maior devido à velocidade relativamente baixa a que navegavam então...
Se o Zé Ventura tiver paciencia para postar e os colegas paciencia para ler e comentar, talvez que eu me atreva a outras descrições, tais como..: a matança do porco...o jogo da bilharda (ainda se recordam ...?)...as viagens em bateira à Foz do Arelho etc...
Só agora ao reler o comentário do amigo Justiça, reparei num erro que ele refere.
Efectivamente a parte da frente é a proa, tratou-se de um lapso da minha parte...
Abraço
Maximino.........12-07-2010
Excelente texto que demonstra o que aqui escrevi uns posts atrás como comentário: a história das Caldas está constantemente a ser escrita nos diversos blogues.
A "paciência" para os eventuais posts que refere é a sua, nós, os leitores, estamos ansiosos por mais.
Um abraço
João Jales..........12-07-2010
Só uma pequena achega para ajudar a descrever o significado da bateira, para um miúdo de 7/8 anos, no início dos anos 60.
Alugávamos uma bateira, sábiamente conduzida por um condutor tisnado pelo sol e pela maresia) para nos levar à outra margem.
No caminho havia, por vezes, ilhotas ou zonas de água pouco profunda,onde, todos nós, eu, os meus Pais, o meu tio, os meus Avós, apanhávamos uma sacada de berbigão que, depois íamos abrir, na outra margem num fogão a petróleo que havia sido, judiciosamente, "mobilizado" para a função.
Falece-me aqui a memória para acrescentar pormenores ao lado líquido da patuscada...
Para o puto, havia, seguramente, gasosa ou pirolito (da bolinha).
Ao fim da tarde, completada a expedição, voltávamos à Foz para apanhar a camioneta dos Capristanos para regressar às Caldas e dali à Matoeira.
Ainda hoje, ao ver as bateiras, me parece que sinto o cheirinho dos berbigões ...
Mais de meio século passado, a Foz e a Lagoa continuam, com todos os seus símbolos, a fazer-me sentir menino nem que seja só por uns instantes ...
Noronha Leal.............12-07-2010
Maximino
Já agora junta a pitoresca festa das descamisadas nas eiras acompanhadas com os rituais do aparecimento do milho-rei, danças e cantares e mata-bicho.
Voltando ás bateiras substitui "mesmo que houvesse um ou outro "encosto" entre embarcações" para "mesmo que houvesse um ou outro abalroamento".
O casco, invólucro exterior, composto por Fundo, a parte mais baixa do casco, Costado, as partes laterais do casco, Encolamento, junção entre o Fundo e o Costado. Para reforço do Costado este assenta sobre o Esqueleto e Balizas que recebem as Boeiras, pequenos rasgos ou furos que permitem a passagem de liquidos de Caverna para Caverna sendo, geralmente, a do meio destinada a escoar a água. Ao conjunto de Balizas dá-se o nome de Cavername que por sua vez formam as Cavernas.
Vaus e Longarinas unem as Balizas entre si, transversal e longitudinalmente.
Como a Bateira é desprovida de Quilha esta é substituída por uma prancha de madeira ou chapa de ferro longitudinal, sendo através dela que é construida a embarcação tornando-se como que a espinha dorsal.
Depois não digas que não dei o meu contributo para a construção da bateira. Em troca quero dar umas varinadas depois de construída.
Um abraço
A.Justiça................12-07-2010












