sábado, 20 de dezembro de 2008

A Escola do meu tempo

Um destes dias o Mário Capinha, um antigo aluno agora reformado da Banca, trouxe para o Blog o seu Cartão Escolar do Ano Lectivo de 52/53.
Esta preciosidade que agora se publica serviu de mote para cinco minutos de conversa para ficarmos a saber mais coisas sobre a Escola dos anos 50.

Este nosso amigo que foi aluno de 1951 a 56, frequentou inicialmente o curso diurno, passando depois para um curso de Comércio - criado por iniciativa do então director Sotto Mayor - que funcionava das 17H30 às 19h30.
Esta situação abriu as portas aos alunos que já trabalhavam e que não tinham ainda 15 anos, pois só a partir desta idade é que podiam inscrever-se na escola nocturna.

Falar dos tempos de Escola é recordar alguns colegas como por exemplo o António David, o Carlos Figueiredo, o Florindo da Silva Lemos, o Ricardo Contente, o Marques Silva, o Ilídio Prata, a Laura Subtil, a Luísa Pimenta, a Celeste Idalina Bernardino (filha do proprietário da residencial dos Olhos Pretos) e tantos outros.

Dos professores recorda a figura de Manuel José António a quem carinhosamente chamavam de Ti Tóino. O Dr. Sarmento, a D. Vitúria, que dava estenografia, o Prof. Barreto, o Dr. Sotto Mayor que dava uma pomposa disciplina de Economia Politica e a D. Alice que era também conhecida pela paixão que tinha pelos bichos-da-seda.

Fiquei também a saber que naqueles anos não havia a disciplina de Educação Física, apenas algumas actividades desportivas pontuais levadas a cabo sob a égide da Mocidade Portuguesa. Dizia o Capinha com alguma graça que Educação Física era alugar por um escudo uma bola de futebol, em frente no Albertino, e ir para a mata jogar.

Falámos ainda do Pacheco, vendedor ambulante de guloseimas, do seu primeiro emprego, na loja do Zé Duarte, (na praça da Fruta onde foi o Monteiro e hoje loja da EDP), e do seu primeiro vencimento: 80 escudos, uma fazenda para um par de calças e uma gravata.

Estas recordações fazem muito bem à alma; pessoalmente sinto-me muito bem por o Blog contribuir para estes momentos.

Ainda sobre os professores, uma revelação que eu desconhecia: que a poetisa Matilde Rosa Araújo também passou pela escola onde deu aulas de Português durante dois anos.
E nada melhor para fechar este pequeno apontamento que uma poesia alusiva ao natal da antiga professora.

Presentinho de Natal

Eu queria ter um cestinho cheio de Flores
Para tecer um xaile de muita cor, muito lindo!
E um retalhinho do Céu
Para fazer um vestido azul tão lindo!
E mais sete estrelas das mais brilhantes
Para armar um chapeuzinho de Luz!
E mais ainda dois quartinhos de Lua
Que chegassem para uns sapatos de saltos muito altos
E tudo isto, depois
Eu dava a minha Mãe
De dentro do meu coração
Neste dia de natal:
O Xailezinho de muita cor,
O Vestido azul,
O chapelinho de Luz,
Os Sapatos de saltos muito altos…
Minha Mãe! Minha Mãe!
E hoje é dia de Natal
E só posso dizer
Minha Mãe! Minha Mãe!

Matilde Rosa Araújo – O livro da Tila
Livros Horizonte,1986

Comentários:

O Mário Capinha veio mostrar-nos com muito orgulho o seu precioso Cartão Escolar, e recordar colegas e professores do seu tempo.
Menciona alguns nomes de pessoas que eu conheci e com quem convivi.( Alguns até têm Internet mas não aparecem)
Na minha modesta opinião, o blog está indo por bom caminho, e seria interessante que outros colegas da época perdessem a vergonha, e por aqui aparecessem com temas semelhantes. Como sabem eu não fui aluno da Escola mas alegra-me imenso ler estórias contadas por pessoas do meu tempo. Parece-me, é que o pessoal tem medo dos computadores. Não tenham medo que isto não é nenhum bicho de sete cabeças, e os computadores agora até estão baratos. Eu sou mais velho que o Capinha, e como vêem cá ando metido nisto, sempre na esperança de encontrar alguém conhecido que me faça recordar os bons tempos da juventude.
Obrigado Mário!

Fernando Santos........21-12-2008

A escola do meu tempo não é precisamente a dos anos 50. No início da década, nem sequer tinha nascido. Dos nomes referidos, só reconheço os dos Drs. Barreto e Sarmento, meus professores de Matemática e Físico-Química, o primeiro no edifício velho, o segundo já no novo. Lembro-me do Dr. Sotto Mayor como director da escola, mas pouco mais. Sobre a Matilde Rosa Araújo, é com verdadeira surpresa que tenho conhecimento da sua passagem pelas CdR. As vezes em que nos encontrámos, noutras paragens, nunca se proporcionou falar desses tempos tão pretéritos. Nem sequer imaginámos que tivéssemos essa partilha de espaço em comum. Estou de acordo com os comentários que o Fernando Santos nos tem concedido ultimamente. A comunicação virtual é um pouco isto. Não nos conhecemos e já estamos a conversar. Os computadores não mordem mas continuam a intimidar. Sobretudo quem aprendeu a escrever (como eu / como nós) nas «ardósias», nos «cadernos de duas linhas», com as «canetas de aparo» que molhávamos nos «tinteiros» das «carteiras» e, muitas vezes, disfarçávamos as nódoas indiscretas com um precioso «mata borrão». A escola do meu tempo ainda era assim. Parece que foi há uma eternidade, mas continua a acompanhar-nos inexoravelmente até ao presente, que continua a ser o nosso tempo.

Artur R. Gonçalves.......22-12-2008

A curiosidacde deste Bilhete de Identidade do Aluno, emitido tinha eu nascido há pouco mais de 4 meses, reside no facto, para mim novo, de o Professor Barreto aparecer a assinar como Chefe da Secretaria e, dez anos depois, ter sido, no rés do chão da Escola velha, meu Professor de Matemática e imaginativo "Júlio Verne" das viagens à Lua que viriam a acontecer no final dessa década.
Se a passagem de Matilde Rosa Araújo pela Escola não me era desconhecida, a ignorância era completa sobre o desempenho do cargo que, no meu tempo, foi sempre do Sr. Gouveia.

Orlando Sousa Santos.........22-12-2008

O meu pai deve ter começado o trabalhar na escola em 1953, pois eu nasci em 1955, e o chefe da secretaria anterior era o Prof. Barreto. Ele disse-me isso várias vezes. Quando eu era muito pequeno lembro-me de ir á secretaria da escola velha e tinha 3 funcionários, o meu pai, o Pereira que depois foi para Vila Real de Santo António e o Adalberto, cuja filha que foi do nosso tempo na escola se cruzou há dias comigo nas Caldas. O Adalberto era tanto quanto me lembro filho de uma senhora que também trabalhava na escola. Quanto á Matilde Rosa Araújo ter sido professora na escola eu sabia disso também pelo meu pai mas muito antes de nós por lá andarmos. Há poucos dias estive a jantar com um grupo de amigos aqui nas Caldas e lá estava como sempre o Mário Capinha ou não fosse ele o principal organizador da logística desse jantar, e ele disse-me que tinha falado contigo e perguntou-me várias coisas do nosso almoço. Já lhe disse que deve contar com o 2º sábado de Maio (09-05-2009). Nesse mesmo jantar estava ao meu lado o Chico Leal que costuma vir especialmente para o efeito de Paris e já me disse que está a contar voltar novamente no próximo ano. Um abraço de Boas Festas para todos e um ano com saúde.

Carlos Gouveia.............23-12-2008

Sim, o Adalberto era filho da D.Olívia, funcionária também na Escola e que era de ascendencia obidense e prima da criadora do Bordado de Óbidos, a D.Maria Adelaide Ribeirete, falecida recentemente já centenária.
O Bordado de Óbidos era ensinado às meninas da Formação Feminina e foi levado para a Escola, precisamente pela Sra D.Olívia que pediu para isso permissão à sua prima.
Desculpem lá esta achega de bairrismo obidense...

Boas Festas para todos/as os companheiro/as e um abraço muito especial ao Zè Ventura que continua a alimentar o Blog...!!!

Maximino.........23-12-2008

Boas Festas para todos !
Aproveito esta "vitrine" para, nesta quadra, recordar algumas dos Homens e das Mulheres que, tendo já deixado este Mundo terreno, formam parte do meu (e de muitos outros) universo.
São eles (sem preocupação de ser exaustivo), o Professor Barreto (e a "decimalização do esterlino" que pouca gente já se lembra do que era ...), a Dona Maria Xavier (e os períodos gramaticais, complexos, para construir), a Dona Vitúria, de quem fui aluno de Caligrafia (com 19, passe a vaidade), o Senhor Gouveia da Secretaria, que bem insistiu comigo para eu ir leccionar na "nossa" nova Escola (mas a quem eu nunca dei esse gosto, tendo previlegiado a carreira na Cidade Grande...), a Dona Olívia, contínua e mãe do Adalberto, o Adalberto, ele mesmo grande e bonacheirão, o Professor Celestino Alves (que nos distribuía pela cidade, fazendo desenhos inspirados nos monumentos caldenses em folhas de Papel Cavalinho que custavam 5 tostões cada duas), o nosso bom "Mocho" Doutor Sotto Mayor, temido, disciplinador mas bondoso, e tantos outros que povoam a minha mente, fazendo parte do elenco a quem devo grande parte do que, muito ou pouco, fui capaz de ser na vida!

Em mais esta Natal, em que eles já nos não acompanham (estou a ouvir, "in the back of my mind", David Mourão Ferreira na sua Ode (?) ao Último Natal...), recordá-los é um acto de agradecimento e de amor cristão. Faço-o com gosto e emoção.

Bem hajam e que, lá onde Deus entendeu recebê-los e instalá-los, tenham muitos presentes...

Bom Ano Novo para vocês todos, com o ZV à cabeça!

Noronha............23-12-2008

A estória do Mário Capinha deu origem a muitos comentários. Coisa que desde há muito não se via no blog.
O Artur R. Gonçalves diz que no início da década de 50 ainda não tinha nascido? E quando foi para a escola se usavam ardósias, tinteiros e canetas de aparo? Eu apanhei tudo isso na Escola Primária, e aprendi a ler pela Cartilha Maternal de João de Deus. (Alguém se lembra ou aprendeu a ler por este pequeno livrinho?)
Contudo, penso que quando fui para a Escola Industrial em 41/42 já usava caneta de tinta permanente. (Ou será que estarei errado?) O tempo passa e há coisas que já não recordamos.
O Carlos Gouveia no seu comentário cita os nomes dos três funcionários da Secretaria, e eu lembro-me muito bem do Pereira. Fui amigo dele aí em Caldas, e mais tarde quando vim para o Algarve encontrámo-nos algumas vezes em Vila Real de Santo António.
Espero que os computadores deixem de morder nos mais (velhotes) para eles poderem aparecer aqui pelo BLOG., e por fim desejar um feliz Natal ao Zé Ventura que me tem permitido agradáveis momentos, bem como a todos os intervenientes deste blog.
Um Abraço a todos.

Fernando Santos...........23-12-2008

Ainda bem que o pessoal senior tambem já começou a entrar no blog assim já estou mais novo.
Lembro-me do Mário antigo colega do tenis de mesa do Sporting das Caldas e com ele por vezes me cruzo nas Caldas e gosto em saber certas coisas escritas aqui que desconhecia.
É bom o pessoal ir divulgando um pouco de cultura que nunca fez mal a ninguem.E com isto quero desejar Bom Natal e Festas Felizes a todos os bloguistas e suas familias e restantes ex-colegas da escola.

Um abraço, Lobato............24-12-2008

As «canetas-de-aparo» são uma imagem de marca da Escola Primária que eu frequentei na passagem da década de 50 para a de 60. Depois do Exame da 4.ª Classe, entrava-se no reinado da prestigiante «caneta-de-tinta-permanente», logo destronada pelo império da revolucionária «esferográfica-descartável-de-plástico». Contudo, para quem seguiu a vertente Comercial do Ensino Secundário, a velha «caneta-de-madeira» continuava a presidir às aulas de Caligrafia e, por arrastamento, às de Contabilidade. As letras inglesa, francesa e gótica, registadas em aparos adequados aos diversos estilos ainda resistia nos primeiros anos da década de 70 no ICL. Os Cravos de Abril é que vieram modificar essas tradicionais técnicas de escrita. Gradualmente, os mastodônticos «cérebros electrónicos» foram cedendo o passo aos maneirinhos «computadores individuais» tão populares e indispensáveis nos nossos dias. Toda uma história feita de muitas histórias (ou «estórias», como alguns começam a preferir), que a NET se encarrega de distribuir um pouco por todo o lado e ao domicílio, neste «Admirável Mundo Novo».

Artur R. Gonçalves.........30-12-2008

Depois desta breve «história cronológica» da arte de escrever do Artur, porque não relembrar as aulas do ICL onde no mesmo início de 70 aprendíamos (?) Programação Cobol (seria esta a linguagem ?) sem nunca termos à nossa frente a pequena caixinha quadrada que mudou o mundo. É claro que, no meu caso pessoal pelo menos, foi tempo perdido. Apenas a partir de 82 comecei a lidar diáriamente com estas coisas e a contribuir para os milhões do Bill e dos companheiros «mal vestidos» da altura. Já lá vão afinal 26 anos. Uma eternidade.
Outra forma particular de escrever era a Estenografia. O oposto da Caligrafia. Não sei se algumas das nossas ex-colegas guardou alguma coisa e continua a usá-la, mas também neste caso para mim, foi tempo perdido. Falo em ex-colegas, no feminino, pois lá em casa a minha esposa, que muito cedo deixou as escolas do nosso cantinho à beira-mar plantado, quando precisa de gravar rapidamente qualquer coisa, prefere o uso daqueles riscos esquisitos, ao sofisticado gravador digital.
Nós que escrevíamos ininterruptamente horas seguidas, hoje se devemos alinhavar mais de 5 linhas seguidas, sentimos o braço a dar sinais de cansaço. Deve ser apenas falta de hábito, pois a idade não terá nada a ver com o caso. Espero.

J.L.Reboleira Alexandre........30-12-2008

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