quinta-feira, 15 de julho de 2010

O Sr. Custódio

A estória que vou contar nada tem a ver com Alunos Bordalo a não ser, e apenas, por fazer parte dos horizontes da memória deste Aluno Bordalo que fui e… perdoem-me a imodéstia, continuo a ser.
Com esta estória pretendo apenas “destacar” e levar ao vosso conhecimento, uma pessoa divertida, alegre, simples como só as pessoas do povo profundo são simples, que tratava os jovens por meninos e os adultos por senhor.
Quando conto uma estória de vida procuro que a mesma tenha algum ensinamento, seja ele na forma de um ditado popular, provérbio ou, como este que vos vou entregar, uma chamada de atenção para o facto de que não nos devemos distrair ou abstrair daquilo que se passa à nossa volta… isto porque nos últimos anos temos andado muito distraídos e só por isso o nosso País se colocou à beira do abismo. Esta é a estória do Sr. Custódio.

O Sr. Custódio era, era não, foi, - pois já não se encontra entre nós há muitos anos, - tudo isto, brincalhão, risonho, educado embora, penso, não saber escrever ou ler, falava com todos e todos lhe falavam, possuidor de um lato saber que só a idade e a experiência de vida pode doar mas… há sempre um mas… tinha uma devoção extremamente dedicada à pinga, tinto de preferência, que se a mesma devoção fosse dedicada a Deus era mais Padre que muitos Padres e hoje estaria canonizado.
Ora o Sr. Custódio todos os dias de Verão, ao fim da tarde, saltava para cima da sua carroça carregada com bidões e baldes, sentava-se no banco - que mais não era do que uma tábua atravessada de lado a lado da carroça - puxada por uma mula que, - bem acompanhada pelas suas moscas particulares e sempre fiéis, - de tantas vezes fazer o percurso já o sabia de cor e se tornou nos olhos de ambos, sabia quando andar e por onde ir e quando parar, enquanto o dono, sentado no seu lugar, dormitava e ambos lá iam realizando uma das suas múltiplas tarefas diárias.

Esse trabalho consistia em ir de casa em casa, restaurante em restaurante, hotel em hotel e recolher a lavadura, que como sabem, consistia de restos de comida que depois de colocados nos recipientes da carroça eram transportados e despejados nos “cochos”, comedouros próprios para porcos, onde a sua pequena vara de porcos, “fuçantes” e esfomeados, se encavalitavam uns sobre os outros na conquista de um lugar para se refastelarem a comer.
(Todos os anos, em alturas próprias, se matava um ou dois e a sua carne e afins, tudo no porco é aproveitado, depois de devidamente acondicionados em salgadeiras, serviria para alimentar a família.)
Mas para cumprir esta tarefa de recolha, havia num senão… é que ao longo de todo o trajecto, desde a saída de casa, situada quase na periferia da aldeia, até ao regresso havia inúmeras tabernas e cafés, ora à esquerda ora à direita da estrada e que eram locais de paragem obrigatória, não que o Sr. Custódio parasse a carroça, não era preciso, a mula que era conhecedora destes costumes parava por ela própria e o Sr. quando a carroça parava abria os olhos para identificar o local, não fosse a mula fazer batota e ter saltado uma paragem, saltava do seu lugar e ia restabelecer o nível de “tintol” no depósito com um “copo de três”.

Ora uma bela tarde no fim de mais um dia de Verão, já no regresso a casa para ele e ao curral para ela, faltavam apenas mais dois postos de abastecimento, fornecedores desse liquido abençoado pelos Deuses, a Dona Mula, ou por cansaço, ou por fome, ou por tédio resolveu não parar num dos postos. Só que esse era especial, o produto era mais rico em octanas e porque defronte havia uma árvore e a mula só parava quando encostava a cabeça na árvore e ali ficava com a cabeça encostada até que o seu dono acordasse, descesse, abastecesse e regressasse do posto de abastecimento.
Mas ela nesse dia continuou caminho, olhou de lado para a árvore e, ou não estava com paciência para ficar ali de castigo com a cabeça encostada à árvore e orelhas de burro, ou estava com pressa, provavelmente aborrecida por não ter encontrado nenhum “mulo” para um bate-papo… eu sei lá as razões.
Por instinto ou porque o tempo decorrido desde a paragem anterior lhe parecesse mais longo que o habitual, o Sr. Custódio abriu os olhos, puxa as rédeas obrigando o animal a parar e exclama em alta, roufenha e “envinhada” voz a frase que ficou celebre e que hoje, na aldeia e julgo que até esta minha geração durar, será sempre utilizada para admoestar todos quantos se distraem das suas obrigações, ou simplesmente não reparam numa “bomba” de belo corpo e um palminho de cara a passar por perto, o que não deixa de ser também uma obrigação o devido préstimo de atenção…
ABRE OS OLHOS MULA QUE JÁ É DIA…

A. Justiça

Comentários:

Abre os olhos mula...!!!

Boa história amigo Justiça...!!!

Já que não se contam as histórias passadas na Escola com os colegas, vão-se contando as histórias que um ou outro conheça...
Mais dia menos dia, vão começar os nossos colegas a contar as suas vivencias passadas...
Abraço

Maximino...........16-07-2010

Leva a comida para o cocho do porco, Zé!

Quantas vezes eu ouvi esta frase autoritária, vinda de meu pai ou de minha mâe. No entanto a palavra «cocho» escrita desta forma, e com este significado, estava totalmente esquecida, e este belo texto do Justiça fê-la reaparecer como por encanto.
Só nós miudos da aldeia pudemos viver paredes meias com porcos, burros, éguas (o Mercedes da época, que o dono do burro estaria hoje ao nivel do dono duma pequena cilindrada), galinhas, coelhos, sei lá. A lista era infindável. A matança do porco, no nosso caso motivo para peregrinação a pé até Alfeizerão, onde iriamos encontrar os nossos primos, que até certa altura apenas viamos nessas ocasiões.

Existência muito mais rica afinal do que a dos miúdos da cidade que já viviam em apertados apartamentos. Nós tinhamos o campo todo para nós e também éramos felizes e despreocupados, até aqueles cuja existência seria um pouco mais dificil! Há um personagem da minha aldeia e da minha idade, infelizmente já desaparecido, que merece uma crónica, e que, prometo, logo que para isso tenha tempo, trazê-la para aqui. A sua meninice foi tão pobre e ao mesmo tempo, tão rica que, vão ver, vale a pena!


J.L.Reboleira Alexandre..........16-07-2010


Parabéns amigo Justiça Excelente estória.
Todas estas estórias são passagens dos nossos tempos de escola.

Obrigado.

Um abraço

Antonio Abilio.........24-07-2010

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