quinta-feira, 11 de março de 2010

Dia da Espiga













Para legendar estas duas fotografias da Teresa Ramalho sobre o Dia da Espiga nada melhor que estes versos que descobriu algures num site que não me lembro qual, e confesso a minha ignorância, também não sei quem é o autor.

Quinta-feira de Ascensão
o povo não cabe em casa:
-cada papoila é uma brasa
na sua imaginação.

Uma brasa que lobriga,
por entre a clara promessa:
de pão, que já se começa
a prever em cada espiga.

Lisboa não foge à regra
porque dias não são dias:
-tem as suas economias,
e mal faz quem não se alegra!

E porque nobreza obriga
e a tradição não perdoa,
-Lisboa sai de Lisboa
chegado o Dia da Espiga!

Acostumada, com zelo,
a bem cumprir seu papel,
mete em cestos o farnel
e corre ao campo, a comê-lo.

Vai tudo de cambulhada
na caravana bizarra:
-vai a família, a guitarra,
a viola, o cão, a criada...

No eléctrico, no vapor,
no comboio –toda aquela
Boa gente se atropela,
buscando o lugar melhor!

Conversa-se em alta voz
e há cestos, em confusão,
pelos bancos, pelo chão
e até por cima de nós!...

Mas não se ouve protestar:
- Não há ninguém que reaja,
porque Lisboa viaja
disposta a rir e folgar!

Por fim na relva tenrinha,
estendem-se brancas toalhas;
e surgem as vitualhas,
que cada cesto continha.

Que bom!... 'peixinhos da horta',
pataniscas com salada,
azeitonas, carne assada,
'bolos de areia', uma torta!

No garrafão, atestado,
já quase não há vinho...
Geme a guitarra, baixinho,
silêncio: - canta-se o fado!

E depois dorme-se a sesta,
e depois o sonho ocorre,
e depois a tarde morre,
e depois... acaba-se a festa!

A debandada é geral...
Mas ninguém de ali avança,
sem trazer, como lembrança,
o ramo tradicional!

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