terça-feira, 9 de março de 2010

A Máquina de Projectar

Nas frequentes visitas que faço aqui ao Blog da Escola Comercial e Industrial, delicio-me com as imagens e narrações que me transportam para os meus tempos de rapazola.
Pena que a minha casa que tenho em Portugal (Vale de Maceira) fosse assaltada e vandalizada aqui à alguns anos atrás, onde as poucas fotografias que tinha como recordação dos tempos da escola fossem todas destruídas.
No entanto recordo aqui um momento caricato que se passou no ano da inauguração da escola.
Os tempos eram difíceis, e eu já trabalhava na Seol (hoje EDP) portanto frequentava o curso de electricidade nocturno.
Ao transitar-mos da escola antiga para a nova, tanto eu como os meus colegas de curso, já tínhamos uma certa "bagagem"
Certa noite apareceu na escola uma brigada da Policia de Viação e Transito, composta por 2 homens bem grandes com um uniforme amarelo, que se deslocavam em potentes motas.
Eles tinham como missão entregarem na escola, uma máquina de projectar filmes que ficaria lá na escola em permanência.
Nessa mesma noite, o Eng. Pinto Correia e o Eng. Vendas deram-nos como trabalhos práticos a instalação dessa dita máquina na cabine de projecção que ficava no ginásio no lado oposto ao palco.
A encomenda era composta por várias caixas de cartão onde estavam as peças do projector.
Sem sabermos exactamente por onde começar, fomos abrindo as caixas e retirando todo aquele material que era composto somente por peças mecânicas.
Depois de tudo retirado, procuramos as instruções de montagem, mas não havia nada.
No entanto cada um dava a sua opinião, e o projector lá começou a ganhar forma
Não tinha nada electrónico, era tudo mecânico, e como componentes eléctricos, tinha apenas um interruptor que accionava uma luz em conjunto com um ventilador de arrefecimento para não queimar a fita, e um outro para ligar o motor que fazia mover uma bobine onde seria colocado o filme.
Claro que a montagem ainda demorou muito tempo, devido á falta de instruções.
Quando todo parecia estar completo, colocámos uma bobine com um filme que vinha junto para fazer-mos um teste e verificar se aquela geringonça funcionava.
Pensámos que esse filme seria alguma propaganda ao Estado Novo com imagens da Mocidade Portuguesa...
Para nossa grande surpresa, tudo funcionava ás mil maravilhas, no entanto o riso foi geral porque o filme explicava como abrir as caixas de papelão, como retirar as peças e como montar o projector.
Mas afinal como fazíamos para ver esse filme explicativo, se não tivéssemos montado previamente o projector?

Faustino Rosário
Montreal - Canadá

Comentário:

Uma história exemplar e exemplificativa da forma arrevesada como a lógica do dito estado novo funcionava…

Artur R.Gonçalves......10-03-2010


A Máquina de Projectar
Li esta estória bem contada e desenvolvida por forma a que só no final tiramos ilações do ridículo da situação, tal como o Artur comentou e com o qual concordo.
No entanto, com a vivência já longa que possuo, desculpem-me, todos nós possuímos, constatamos que este tipo de caricatos relatado pelo Faustino nos acompanha pela vida fora. Acabei á pouco de ouvir e ver na TV que se vai realizar uma corrida de touros cujo resultado da receita vai directo para os cofres da Fundação Abraço. Sou eu que estou errado ou isto não soa bem. Um jogo de futebol, um torneio de ténis, eu sei lá quantos outros eventos se poderiam realizar para beneficio desta causa, que é louvável, disso não tenho a mínima dúvida, agora sacrificar uns poucos de animais de porte soberbo e que fazem a nossa admiração a par de outros, e lembro o cavalo pelos quais sentimos uma certa devoção, isso parece-me ridículo e absurdo.
Concluímos pois que todos os regimes têm este tipo de “vaps” pouco ou nada inteligentes.
Um abraço

A.Justiça........11-03-2010

Se houvesse um regime político perfeito, viveríamos num paraíso perfeito. Mas isso seria uma grande pasmaceira. Toda a gente a gostar de touradas ou toda a gente a detestá-las...

Artur R. Gonçalves........11-03-2010

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