quinta-feira, 29 de julho de 2010

O Rogério Coelho

O Rogério nunca frequentou a Bordalo, mas se o Portugal do fim dos anos 50 e inicio de 60, fosse menos cinzento e todas as crianças tivessem direito às mesmas oportunidades não se teria ficado pela antiga 4ª classe.

Comecei a conhecê-lo, quando, criança, ia com os meus pais para uma propriedade agrícola que possuíamos perto da pequena casa onde ele vivia com a mãe, a que chamávamos «as pedreiras» (aquilo realmente eram só pedras, silvas e barro). A casa seria na altura a casa mais pobre da aldeia, e a mãe não representaria o tipo de mãe que todos os meninos gostariam de ter, ou porque para tal era incapaz ou porque a vida disso a impedia. Sempre que passava frente aquela casa, era com imensa tristeza que os meus olhos para ela se dirigiam.

Fui crescendo até que antes de perfazer os 7 anos, iniciei a instrução primária. Para surpresa minha, aquele menino que eu sabia ser mais velho um ano do que eu, sentava-se na nossa fila. Na altura, e como na escola apenas havia, e continua a haver, 2 salas de aulas, os alunos da 1ª e da 3ª classe, estavam numa sala e os da 2ª e da 4ª classe, noutra. A nossa professora, a Dona Augusta (houve outras, mas foi esta a que mais me marcou), senhora de uma bondade e paciência ilimitadas como que se tornou numa segunda mãe para o Rogério.

Se no primeiro ano de escolaridade não tinha conseguido passar de imediato para a 2ª classe, a partir daquele mês de Outubro de 1958, nunca mais este meu colega de ano chumbou e fazia parte normalmente dos alunos com melhores resultados. Tal não impedia no entanto que a famosa régua por vezes apenas parasse depois de encontrar as palmas das suas mãos.

Junho de 1962, enquanto nós esperávamos ansiosamente pela chegada do dia do exame final da 4ª classe, a realizar na grande cidade, as nossas mães tinham outros problemas. É que o Rogério andava normalmente descalço, e as camisas nem se lhes reconhecia a côr original, e seria impensável ir assim com ele para exame. Rapidamente se organiza uma comissão, que seria responsável pela compra da roupa adequada a tal acontecimento, e não menos importante, o indispensável banho de forma a que as gentes da cidade não se apercebessem da real condição do nosso colega. O banho foi dado numa das casas dos mais afortunados, e uma vez os sapatos, e o completo de fato e gravata comprados estava em condições para entrar num dos táxis contratados para a grande viagem. Automóveis particulares não os havia, se exceptuarmos os das tia e sobrinha Ribeiro, que já na altura eram professoras no ERO e na Bordalo, mas a aldeia nunca contou muito com elas. Elas que nem se dignavam dar-nos uma boleia quando por nós passavam na nossa caminhada diária a pé para Tornada, onde frente à igreja esperávamos a camioneta dos Capristanos .
No exame final, numa escola ali ao lado do posto da Policia de Viação e Trânsito perto do Parque, o nosso amigo não teve qualquer problema e no fim ainda nos acompanhou a beber uma gasosa, ou seria uma Canada Dry, que os nossos pais nos ofereceram na Esplanada do Parque. A mim até cerveja me propuseram mas com 10 anos apenas, achei o sabor amargo e não gostei. Terminada a festa, depois dumas voltas nas bicicletas de aluguer do Parque, o nosso conterrâneo teria que procurar trabalho e, claro, no dia seguinte já estava numa oficina de bicicletas que existia perto da Garagem Caldas, na rua que ia para a Bordalo Pinheiro e depois disso ainda andou por outras oficinas do ramo. No entanto apenas trabalhou por conta de outrem até partir para a tropa.

Neste tempo já nós entre os 13 e 15 anos íamos sozinhos para a praia de Salir, onde havia meninos mais afortunados que nós que se passeavam nuns barcos que possuíam uns motores atrás, os tais fora de borda. Faziam corridas e tudo. Aí começamos a pensar porque não construirmos um barco parecido com aqueles. Para tal faltava-nos no entanto o engenho, quando alguém se lembra do nome do Rogério, que por vezes aparecia por ali numa maravilhosa V5 que, creio já andava a mais de 60 Kms por hora. Uma velocidade impressionante.

Explicamos-lhe o que pretendíamos e ele, de imediato meteu mãos à obra. Aconselhou-nos a comprar um barco de alumínio com cerca de 2 metros de comprimento, que o problema do motor seria por ele resolvido. Alguns dias depois eis que atrelado à sua V5 chega o famoso barco. Só que o motor, não funcionava a gasolina, mas sim através de um engenhoso sistema de pedais com uma corrente, copiado das bicicletas, que accionava uma hélice no exterior, na popa e fazia navegar o barco. Não sei se algum dia competimos com os fora de borda da baia, mas no rio de Salir e com a maré cheia fazia a inveja de todos aqueles que não possuíam barco nenhum. Nunca esqueci este episódio da minha meninice. Sim que não teria mais que 13 anos na altura.

O Rogério entretanto continuava no seu trabalho nas bicicletas até que foi chamado para a tropa. Voltou, casou e de imediato abriu uma pequena oficina numa rua da aldeia, que ainda lá está. Perdi um pouco o contacto com ele, e quando por vezes por lá passava, tendo-lhe até lhe chegado a comprar uma bicicleta para o meu filho mais velho, parecia-me que o negócio funcionava, agora até já tinha um tractor com que arredondava os fins de mês em pequenos trabalhos agrícolas para clientes eventuais. Notava-lhe no entanto uma certa dureza no olhar por vezes quando nos cumprimentávamos. Contou-me que se dedicava à caça, e ia trabalhando. Até que um dia vejo na Gazeta a noticia que não me surpreendeu. Numa das caçadas e com um ou dois copos a mais, a sua arma matara o seu habitual companheiro daquelas andanças. Pagou a dívida à sociedade com a respectiva perda de liberdade, e voltou a instalar-se na pequena oficina da aldeia. Mas se a reinserção de um ex-prisioneiro é difícil numa grande cidade, numa aldeia como o Chão da Parada, é impossível.

O Rogério nunca mais foi o mesmo e há alguns meses, decidiu acabar com todos os seus problemas. Ainda não teria 60 anos. Eu lembro-me sobretudo do meu colega da Primária e do barco a motor movido a pedais.

Até um dia!

J.L Reboleira Alexandre

Comentários:

Vamos lembrando recordações do passado e embora nesses tempos não tivessemos a maior parte das coisas hoje acessíveis, a verdade é que o fazemos, mesmo assim...com saudade...
Quantos Rogérios não conhecemos, quantos amigos de infancia não recordamos...
Vida dificil a desses tempos, mais para uns do que para outros, mas para a maioria não deixam de ser boas recordações...

Abraço do Maximino........31-07-2010

O Rogério
Zé Luís, passaram mais de 50 anos sobre a tua estória. Infelizmente também conheci, nessa altura, alguns Rogérios que me ficaram como amigos durante todo este tempo já decorrido. Mas o lamentável, meu amigo, é que parece não ser só devido ao cinzento da politica de outrora pois esta cor se mantém e o País, infelizmente, continua a conter demasiados Rogérios no seu seio apesar dos políticos actuais lançarem o absurdo das novas regras de não haver chumbos. Será que não percebem que o que estão a fazer é só fachada para UE ver e que com isto estão a comprometer o futuro. Enfim passou-se do 8 para o 80 e se lutamos para alcançar as virtudes da meritocracia assim dificilmente a vamos alcançar.
Esta tua estória vem reforçar aquilo que tanta vez saliento, mesmo nos meus escritos, vivemos a nossa meninice e juventude numa época em que, os que não podiam comprar feito, o que era a grande maioria, tínhamos de inventar os nossos próprios brinquedos, brincadeiras e outras distracções. Foi realmente uma época rica em imaginação e criatividade e, se calhar, por isso mesmo o surgimento do que de melhor se fez em música, cinema e literatura.
Concordo contigo quando concluis: “Eu lembro-me sobretudo do meu colega da Primária e do barco a motor movido a pedais”, é realmente os bons momentos que devem ficar nas nossas memórias sendo no entanto salutar que os menos bons, ou mesmo maus, não sejam apagados definitivamente.
Apesar de tudo e o seu final drástico foi, é, uma estória de vida bem contada demonstrativa que os maus começos dão quase sempre maus fins e por isso o meu receio quanto ao futuro deste nosso País abusador do facilitismo que vive.
Um abraço

A.Justiça.........01-08-2010


Pegando "na denuncia" do amigo Justiça... dizer que tenho andado a ouvir nas notícias e nem sei o que dizer...por favor alguém me explique...!!!

Então agora vai-se para a Escola...e nunca se chumba, mesmo que nada se saiba...???

Não há dúvida de que Portugal se está a tornar num país do faz de conta...!!!

O meu neto, agora quase com nove anos...quando saiu do jardim escola, teve festa de "fim de curso"...
A minha neta, com dez anos passou agora para o 5º ano e teve festa de despedida, com direito a capa e tudo...como se se tratasse de um fim de curso universitário...!!!

Também...estou para aqui a admirar-me ...quando até temos um 1º ministro que tirou o seu licenciamento ao Domingo...!!!(Já nem sei se tirou...ou se não chumbou numa 1ª experiencia do que há-de vir...)

Portugal...tu és fantástico...ou será que é fantasmagórico...???

Querem ver que não tarda... as crianças vão sair da maternidade...já licenciadas...???

Valha.me um burro aos coices...(de longe...não vá o diabo tecê-las...)

Um abraço Maximino .........01-07-2010

Ao amigo J.L. Reboleira Alexandre um agradecimento e os parabéns por esta boa estória sobre o seu colega de infância.
Gostei do seu texto e também me fez lembrar duas coisas, da escola do bairro Albano (foto), que eu frequentei até á quarta classe.
Quando cheguei a essa mesma escola encontrei alguém como o seu amigo Rogério, que na primeira classe não tinha sapatos para calçar, até por vezes não tinha nada para comer, embora naquele tempo havia a cantina na estrada da Foz perto do matadouro, que servia refeições para os menos privilegiados.
Eu também senti pena por este colega e um dia sem avisar os meus Pais, levei para casa para lhe dar de almoço, quando lá cheguei os meus Pais não tiveram outra alternativa se não dar algo para o rapaz comer, pois nós também não éramos dos mais abonados, mas sempre havia uma coisita para ajudar quem precisasse, e assim foi, o rapaz comeu do nosso almoço como fosse parte da família.

Infelizmente nunca mais soube nada desse colega mas de facto era mais um dos Rogérios do nosso tempo.

Ainda bem que os Rogérios de hoje já não andam descalços nem têm tanta fome.

Mais uma vez obrigado por a sua estória J.L.R.Alexandre. Trouxe-nos memórias de como os nossos tempos eram.
Bem-haja para a fartura de hoje.

Um abraço

Antonio Abilio...........06-08-2010


O António Abilio anda um pouco a Leste da realidade de hoje, e repare que também me esforço por convencer-me que já não há Rogérios no nosso País, mas eles mudaram de local. No nosso tempo de crianças, á 50 anos, ou mais, os Rogérios encontravam-se nas aldeias e lugares recondidos do País onde agora é raro vê-los e mudaram-se para as grandes metrópoles, capitais do nosso pequeno cantinho português. Sugiro umas voltas pela capital depois da uma da manhã e então aí é vê-los na repescagem dos caixotes do lixo dos grandes super-mercados e centros comerciais. Agora, amigo António, existe uma pobreza mais dificil de enfrentar, a dos nossos novos pobres porque é uma pobreza envergonhada. É a pobreza daqueles que durante toda a vida trabalharam, fizeram uma vida honrada embora apertada, mas digna e louvável e que de um momento para o outro ficaram sem nada, sem emprego, sem meios de ganhar o dia a dia, e com vergonha, porque nunca precisaram, de pedir ajuda, menos ainda de pedir nas ruas, de frequentarem as casas da sopa. Muitos deles apenas choram e a nossa sociedade materialista não quer admitir que existam e, até alguns que por enquanto ainda têm a sorte de poder colocar o comer na mesa, se refugia no "vão trabalhar calinas", maldade de todos aqueles que no fundo, bem lá no fundo, têm é receio de lhes vir a entrar pela porta situação idêntica.
Por isso, António, procure bem pois encontrará muitos Rogérios.
Um abraço

A.Justiça.........06-08-2010

Amigo Justiça tem toda a razão!

Eu felizmente não estou a par de quantos Rogérios, há hoje no nosso cantinho, pois quando ai vou, procuro sempre matar as saudades do bom que deixei, por isso talvez não ter encontrado os mais necessitados por onde ando.
Não tenho dúvida do que o Justiça diz, que eles existem nas grandes metrópoles e que existam mais do que no nosso tempo, pois a população é muito mais numerosa, a dita crise tem dado muitos mais rebentos e frutos a esse problema.

O amigo justiça já de certo reparou que eu tenho alguma dificuldade em me expressar na escrita, pois já são muitos anos sem escrever em Português.

É este blog que me está ajudar a recuperar e a desenvolver o pouco que eu trouxe com 14 anos de idade.
Talvez o que eu deveria ter dito era que hoje a fartura é tanta, que até temos também mais Rogérios na nossa sociedade.
Agradeço ao amigo Justiça por me chamar á atenção, mas espero não ter de encontrar muitos desses novos e envergonhados Rogérios. Pois prefiro manter a minha (ideia)ou digamos memória, nas coisas que temos de bom no nosso cantinho.

Eu vivo num País farto e rico onde também tem muitos Rogérios, causados de várias razões, pois não fogem à regra das grandes metrópoles como citou.
Esta sociedade de capitalismo suporta, e de certo modo causa a existência de estes novos Rogérios que também temos em Portugal.
Obrigado amigo justiça por a sua ajuda, pois gosto de ler o que escreve, força e continue.

Um abraço do Antonio Abilio.......09-08-2010

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