quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

O Senhor Director

Se bem se lembram.
Na Escola velha a cantina situava-se numa zona inferior à entrada principal, isto é, era necessário descer uma escadaria exterior ao edificado para se alcançar o nível da cantina.
Nesse mesmo nível havia uma zona ajardinada, relva, arbustos e o principal, uma ameixeira que dava umas ameixas pequenas e roxas.
Contornando essa área ajardinada um passeio em pedra portuguesa que dava acesso a uma pequena ponte de madeira e passando por ela entrava-se nas oficinas dos serralheiros onde “reinava” o Mestre Raul Silva.
Não, não vou contar “peripécias” do Sr. Mestre Raul, fica para outra ocasião, uma ocasião mais especial como especial era, e continua a ser, para nós que fomos seus educandos, esta personagem que se implantou no nosso imaginário como um “herói de um livro da terra do nunca”.
A cena que vou contar tem como adereço a dita ameixeira. Não recordo o ano mas já devia frequentar o primeiro ano dos serralheiros, portanto já seria um “rapazão”. Estava eu bem empoleirado na “dita cuja” comendo os seus frutos quando deixo de ouvir o bulício dos meus colegas que na galhofa me encorajavam a continuar e pedindo que deixasse cair uma ou outra. De repente o silêncio. Estranho e absoluto. Olho para baixo e vejo um Senhor de fatinho vestido, engravatado e chapéu na cabeça que me diz, com voz suave.
- Desça daí menino.
Desci e coloquei-me na sua frente, direito e submisso tal era a auréola que rodeava tão ilustre personagem. Surgiu a pergunta em voz mansinha e educada.
- Quantas ameixas comeu o menino.
Curioso. Não senti medo. Senti somente a magnitude que tal personagem me transmitia. Não sabia quem era. Nunca o tinha visto. Aquele sentimento paternal que dele emanava tranquilizava-me, dava-me paz e respondi submisso como quem se confessa aos pés da cruz.
- Duas, Senhor, só tive tempo de comer duas.
- Então vou dar-lhe duas bofetadas, uma por cada ameixa. E senti na cara dois “enxota moscas” que mais pareceram festas do que castigo e senti e compreendi também a repreensão a que fui sujeito. Estranho o sentimento que me ficou e o respeito, quase “endeusado”, por tal grandeza de personalidade.
Depois do Senhor se retirar, sem mais nada fazer ou dizer, fiquei especado a olhar para o infinito. Depois reapareceu a galhofa dos meus colegas e um deles perguntou-me, - Não sabes quem é? pela tua cara nem fazes a mínima ideia! Continuei em silêncio e fui esclarecido: - É o Senhor Director, o Dr. Leonel Sotto-Mayor.
Foi um momento sublime. Tinha acabado de receber um “castigo” ministrado pelo Director da Escola e o que ficou desse castigo? não foi azedume mas sim um respeito enorme, grandioso e significativo a tal ponto que o mesmo me acompanhou ao longo da vida.
Sim. Na verdade tive a sorte de ser educando na Escola Comercial e Industrial.
Um abraço,


A. Justiça

Comentários:

Pensava estar calado por uns tempos, mas...lá resolvi dizer algo. Não sei ao certo se acabei em 58/59 ou 59/60, o que me leva a crer que o Justiça iniciou o ciclo nos princípios de 60's e que nos meus anos de escola a árvore de ameixas era grande de deliciosos frutos de cor amarelada quando maduros e se muito maduros davam uma boa dor de barriga. O que me leva a responder ao Justiça é para lhe dizer que gosto do que ele escreve e à ajuda que dá à boa saúde do blogue mas...onde estarias que ao fim de 2 anos e tal ainda não teres conhecimento quem era o Director, figura por todos nós reconhecida para o bem ou para o mal. No recinto da Escola havia sempre paradas em dias de quaisquer manifestações pró regime e ele nunca faltava e era uma figura de bom porte que não passava despercebida.

Chaves..........22-01-2010


Amigo Chaves é que o Justiça, desde que decidiu aparecer por aqui com alguma regularidade, foi uma verdadeira lufada de ar fresco para o blog. E nós agradecemos.

A história dele não é como os livros do Saramago (que me perdoem os puristas...). É para ler até ao fim, e o prazer vai aumentando com o consumo.

Quanto ao pormenor de «não conhecer» o nosso respeitável director, sabes bem que às vezes a ficção sobrepôe-se à realidade para beneficio do relato!

Abraço para os dois.

J.L.Alexandre Reboleira........23-01-2010


Numa aula que eu creio ser do Dr. Seringa, alguém fez explodir uma bombinha de mau cheiro. Na altura dava-se-lhe um nome mais contundente. O reboliço esperado instalou-se mas acabou de forma inesperada. A turma foi toda recambiada para o gabinete do tal senhor educado e engravatado de voz suave e mão pesada. Como ninguém se acusou do acto bombista, o chefe máximo da escola nova distribuiu um par de bofetadas a cada um de nós. Depois mandou-nos sair como se nada tivesse acontecido. Ainda hoje sinto o impacte dos cinco dedos. Ainda hoje me interrogo sobre o sentido pedagógico/gratuito do estalo.

Num outro carnaval, a acção terrorista do explosivo malcheiroso deflagrou numa aula que julgo ser da Dra. Simplesmente Maria. A reacção foi diferente mas muito mais eficaz. A sô’tora não nos recambiou para as mãos punitivas do senhor da voz mansinha e educada. Obrigou-nos, apenas, a ficar na sala (anfiteatro de química) até ao toque de saída. Usou um único argumento: «Não se sintam obrigados a cheirar o que não é vosso!». Encerrou o assunto, aguentou estoicamente o suave perfume a couves podres a desvanecer-se vagarosamente no ar e continuou a debitar matéria. Mais tarde aprendi que é a este tipo de castigo que se dá o nome de bofetada com luvas de pelica.

Artur R.Gonçalves......23-01-2010


Estas históris poderiam sem grande esforço chamarem-se de...: "Histórias dos Bons Malandros..."

Que nada terão a ver com o mesmo tútulo do Mário Zambujal...pois estas são simplesmente nossas...!!!

Bom fim de semana para todo o pessoal...

Maximino.......23-01-2010

O Alfredo Justiça ao fim e ao cabo deve ter muitos episódios dos tempos de Escola para virem aqui para o blog! Dizia ele ainda há uns dias que não sabia o que havia de contar. Todavia traz-nos agora uma interessante estória sobre as ameixas e a ameixoeira onde foi surpreendido pelo senhor de chapéu e gravata.
Infelizmente não conheço o Alfredo. Justiça nem a esmagadora maioria dos que por aqui vão aparecendo. Sou duma geração anterior, e também infelizmente os "cotas" do meu tempo teimam em não querer ligar àquilo a que chamam "modernices"
Mestre Mateus e Fernanda Luísa, Mestre Raul Silva, Vasco de Oliveira, Roberto Lança, Paniágua Feteiro entre outros, são velhos amigos com quem costumo falar via telefone, mas que dizem todos o mesmo! Isto já não é para eles!
Apenas o meu amigo Carlos Luzio, aparece quase diariamente na Internet via messenger, mas quanto a vir ao blog não é com ele!
Sendo assim, desejo felicitar todos os que estão a responder ao apelo do Zé Ventura.
Os resultados estão à vista!
Pelo que me é dado observar, o blog vai tomar outro rumo deixando de ser um local onde apenas vejamos fotos dos velhos tempos acompanhadas de curtos comentários e algumas identificações.
Continuem a enviar fotografias, mas façam-nas acompanhar duma estória ou peripécia vivida nessa ocasião, uma vez que muitas fotos são de viagens de finalistas e visitas de estudo.
Numa viagem, seja ela onde for, tem de acontecer alguma coisa de relevante!
Ninguém pediu ao motorista se podia parar o Autocarro porque que estava aflito para fazer um chi-chi? Alguma vez o Autocarro empanou e tiveram que esperar horas até vir outro em substituição? Devido a um imprevisto alguma vez ficaram sem almoço ou jantar? E que dizer das noites nos Hotéis? Será que dormiam, ou levavam parte da noite a pregar umas boas partidas ao mais inocentes?
Vá... Percam a vergonha... Atirem cá para fora essas recordações!
Desculpem todo este blá, blá blá! Vou já despedir-me!!!
Um abraço para todos.

Fernando Santos.........23-01-2010


Amigo F. Santos, sou um dos que se aproximam da "tua" sua geração, pois dos nomes mencionados aqui ainda me recordo deles e até, embora mais moço, nos anos finais dessa geração já estava na escola. O Lúzio era bastante popular e a malta mais jovem tinha algum receio do seu pai, que na altura era encarregado dos serviços no parque e andava por vezes inspeccionando se havia algum vandalismo da nossa parte. O Roberto Lança, marido da Salomé, colega inseparável de minha irmã Natália (ambas antigas alunas da escola),são agora meus vizinhos nas Caldas e sempre falo com eles quando por lá estou. Do meu comentário ao A.Justiça que provavelmente eu conheço, não estava a duvidar das ameixas serem pretas ou amarelas ,só sei que na minha altura eram grandes e amareladas iguais aquelas que haviam na Rua dos Capristanos e que já não existem. Fernando eu pedi ao Mogo o endereço de mail mas ele não deu noticias

Chaves........24-01-2010

Ó meus amigos!!!
Eu sei lá se as ameixas em amarelas, roxas, pretas ou brancas. Só me lembro que era uma ameixeira e que após o castigo deveriam ter ficado negras e malcheirosas pois nunca mais voltei a trepá-la e muito menos a comê-las.
Quanto ao tempo em que a cena se passou também não recordo ao certo e muito menos se já frequentava as aulas do Mestre Raul. Até é muito provável que a cena se tivesse passado na hora do almoço - que para mim se resumia a uma sopa que custava 1$00 - em algum dos anos do Ciclo Preparatório – 60/61 ou 61/62. Os anos já vão longos mas… e a propósito da sopa baratinha… não pensem que ficava com fome pois na cantina reinava uma excelente Senhora de nome D. Olívia que voltava a encher o prato, quantas vezes as necessárias, até “matar” por completo a “larica”.
Como ficou por dito, vejam bem se foi ou não uma sorte ter estudado nesta Escola?
Um abraço,

A.Justiça.........25-01-2010


Historias do Dr. Sotto Mayor há muitas…. Mas esta que vou relatar é verídica e provavelmente ninguém do meu tempo se lembrará.
Com efeito, num período de recreio da manhã existiam alguns “habitués” que gostavam de dar uns toques na Bola na zona frontal da Escola. Numa manhã, eu próprio, conjuntamente com alguns colegas, entrevi na “pelada” e um dos cracks- penso que terá sido o Antonio Marques das Gaeiras- chutou e por azar nosso a bola bateu no vidro exterior do Gabinete do Dr. Leonel Sotto Mayor, partindo-o e introduziu-se no interior do espaço que por si era ocupado, caindo em plena secretaria. Grande bronca….. o Senhor Director de imediato mandou o continuo chamar todo o pessoal que intervinha na “pelada” e fomos todos ao seu Gabinete.
Durante a prelecção e reparos á postura por si considerada reprovável, um colega da altura, concrectamente o Victor Rijo do Bombarral começou a rir descaradamente á sua frente e quando confrontado pelo Director do “porquê do riso” o Victor, “ganda mangas”…… começou de uma forma inesperada a chorar .
O Dr. Leonel sentiu-se “gozado” e não perdeu tempo…… pregou-lhe dois valentes estalos e referiu que desta forma perceberia o porquê do choro……
Enfim historias do passado. Lá saímos todos no meio de uma brutal “galhofa”.. e fomos para a Mata jogar á Bola divertindo-nos de mais uma história protagonizada pelo incomparável Victor Rijo que nunca mais encontrei- passaram-se quase 50 anos
Saudações amigas para todos os “jovens” dos anos 60

Antonio Nobre......25-01-2010


Meu amigo Nobre...parece-me que estás confundido com a peripécia passada com o Rijo Soares...
Na verdade e creio que a minha velhice ainda me deixa recordar a cena como se fosse ontem...:
É verdade também que o Marques foi parceiro , mas a cena da bofetada (houve mesmo bofetada...)no Rijo, foi no seguimento de uma brincadeira tida no final de uma aula de Contabilidade com o Dr. Jorge Amaro, em que foi atravessado um banco no corredor e ao mesmo tempo a luz foi apagada e em que foram intervenientes nesta brincadeira o Lopes e o Conde...
Depois como ninguém se acusou foi a turma convocada para o Gabinete do sr. Director...
Ali, o Marques fez qualquer coisa ao Rijo e este desatou a rir (melhor...: a fungar...)...
O Director perguntou-lhe a razão do riso e ele logo se apressou a dizer que não estava a rir , mas sim a chorar pelo desenrolar da situação...
Levou uma lambada à Sotto Mayor e logo ripostou ...: Deixe lá sr. Director que ainda mas há-de pagar...!!!

Creio que a versão foi esta...possivelmente estás a fazer confusão com a outra...ou então foi uma grande coincidencia serem o Marques (que era um santo...) e o Rijo que lhe não ficava atrás...intervenientes em diversas peripécias, o que também me não admirava nada...

Maximino...........26-01.2010

Amigo Artur
Essa das bombinhas de carnaval está no horizonte das minhas memórias de traquinices na Escola e veio-me á memória uma aula do Eng.º Periquito que, como bem se lembram, andava sempre com um ar bastante cansado e sonolento.
Para além das aulas de desenho também recebi aulas de tecnologia ministradas pelo Sr. Eng.º - o que era uma valente estopada. Com o tempo fomos aprendendo os "tiques" e hábitos de cada um e um belo dia resolveu-se colocar a cadeira da secretária em posição de forma a que o Eng.º ao entrar para mais uma aula, e como era seu modo de se comportar, se a cadeira estivesse a jeito "atirava" o seu corpo "pequenino mas pesado", quase redondo, para o assento sem sequer a ajeitar. Só que naquele dia, perto do carnaval, alguém... não, não digo quem… tinha colocado um "estalinho" debaixo de cada uma das quatro pernas da cadeira. Bem, podem imaginar o salto que o utente da cadeira deu quando se deixou cair na cadeira e os "estalinhos" rebentaram em simultâneo. Riso e gargalhada uníssona mas... como se tratava do Sr. Eng.º Periquito... não houve queixas a superiores que, salvo erro, ainda esboçou um daqueles seus sorrisos de condescendência.
Um abraço

A. Justiça............26-01-2010

Já agora que se está na maré de falar em professores e sendo o Eng. Piriquito um dos meus heróis como professor, também vou dizer algo. Julgo que foi no meu ano que ele começou a dar aulas na B.P.,como professor de desenho (com o livro desenho de máquinas),já que as outras duas disciplinas "orçamemtos" e "tecnologia" não havia livro e era tudo ditado por ele com todo o tempo do mundo. Na altura a maior parte dos alunos de serralharia do meu ano (malta fixe) fomos aprender inglês em privado e então começamos a chamar-lhe Piriquitation. Como bom homem que era, ele próprio comprou as pranchetas e o esquadro em T para quem não tivesse meios de os comprar e então íamos pagando a soluços. Passado uns bons anos,eu e a minha mulher fomos à Nazaré visitá-lo ao "Mar Bravo" que era o seu restaurante e ele reconheceu-a imediatamente e até lhe disse que ela era irmã do Corado e que estava muito contente por me ver já com um filho e já não ser aquele malandreco que falava muito nas aulas Que esteja em PAZ

Chaves.......27-01-2010

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